Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O festival acorda

Cultura

Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2008 | 10h01

GRAMADO – Cheguei passado da meia-noite no hotel e tentei postar, mas não deu. O sistema caiu, perdi meu tempo redigindo um extenso post e depois tentando salvar. Foi-se o meu texto. Começava com o que vocês leram anteriormente, a resposta à provocação do Paulo, e prosseguia com Júlio Bressane. Estou atrasado. Tenho mil matérias para a edição de amanhã do Caderno 2 e quero dar uma passadinha pelo debate de Eryk Rocha (‘Pachamama’, do qual gostei bastante), mas antes quero falar sobre Bressane. Jùlio recebeu ontem o troféu Eduardo Abelim. No palco do Palácio dos Festivais, ele repetiu o que havia dito à tarde num encontro com a imprensa. O festival de Gramado foi sempre azedo e antipático com ele, mas isso fazia parte de uma gestão – curadoria – que privilegiava outro tipo de cinema. Gramado foi perdendo o prestígio, foi para a cova, como diz o Júlio, e aí surgiu a nova curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz para ‘ressuscitar’ o morto – para tirar Gramado do cemitério. Foi por confiar/apostar nessa nova curadoria que ele aceitou o prêmio, que recebeu à noite, emocionado mas sem choro, ao contrário de Walmor Chagas, na noite anterior. É verdade que, ao contrário desse, Bressane, apesar de aplausos calorosos, não foi aplaudido de pé, o que talvez indique que alguma coisa da antiga birra ainda persista, ou que a admiração que ele provoca seja fria. Mas não é sobre isso que quero falar. Já havia entrevistado Bressane e, inclusive, fui à casa dele, no Rio, para falarmos de ‘Dias de Nietzsche em Turim’. Mas nunca o encontrei num festival, pode ser que por não ir tanto a Brasília, onde Bressane é rei. Como conseqüência, nunca havia visto Bressane num debate. Fiquei fascinado e até me sentindo culpado por não gostar incondicionalmente de seus filmes. Só ontem, naquela coletiva, entendi o culto (e o mito). Bressane faz um cinema erudito, no qual a palavra é essencial. Ele próprio domina a prosa. É encantatório como Xerazade. E, ao mesmo tempo em que é erudito – tudo vira performance, cada resposta, cada observação que ele faz vira um discurso refinado e carregado de informação -, o que me fascinou é que Bressane, ao contrário de seus pedantes admiradores, que precisam arrotar cultura, é de um calor humano, de uma emoção, de uma entrega, de um humor que você não espera do homem que faz aqueles filmes. Walter Carvalho, que tem fotografado os filmes recentes de Bressane, veio com ele para a homenagem. Tenho uma relação mais formal com Bressane, mas com o Walter já tenho intimidade para me levantar da cadeira e ir lá dizer no ouvido dele – “Estou em êxtase. Nunca havia ouvido esse cara falar em público. Ele é fascinante.” A resposta de Walter Carevalho – “E eu não sei? Não é por outro motivo que estou aqui com ele. Não poderia perder a oportunidade.” Bressane recusa o rótulo de marginal, fala de sexo – aquela palavrinha de duas letras que designa o ânus é uma das mais usadas de seu repertório – e quebra a cara quem espera vê-lo defender o baixo orçamento. O problema, Bressane sabe, não é fazer filme com pouco ou muito dinheiro, ou mesmo sem dinheiro. O problema é a mediocridade aflitiva de um cinema que puxa o espectador para baixo, ao invés de incentivá-lo a olhar para cima – como, aliás, fazem blockbusters tipo ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’ (agora sou eu falando). Hoje, vou ter um dia corrido, mas às 4 da tarde páro tudo para ver o curta que Bressane fez durante sua visita ao túmulo de Michelangelo Antonioni, em Ferrara, no ano passado. Mais tarde, volto para falar dos filmes de ontem, inclusive o colombiano ‘Perro Come Perro’. de Carlos Moreno, cuja violência me deixou siderado. O que é aquele filme? Gramado despertou.