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Cultura » O ‘expressionismo’ de Minnelli

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Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2010 | 10h22

Tenho de me apressar e fazer mala para correr ao aeroporto. Embarco daqui a pouco (meio dia) para Belo Horizonte e, de lá, sigo para Tiradentes, onde começou na sexta – com uma homenagem a Karim Ainouz – o festival de cinema. Vou integrar o júri da crítica na mostra competitiva que começa amanhã e prossegue até sexta (o festival termina sábado). Depois, permaneço uns dias em Minas (re)visitando as cidades históricas – Ouro Preto, Congonhas do Campo, Mariana, Sabará etc. Mas não resisto a acrescenta um post que, há dias, me consome. Já disse que, em Paris, me lembrei de meu amigo Jefferson Barros, quando vi, na ‘Cahiers’ de janeiro, a lista de Jean Douchet, crítico que Jefferson reverenciava, com os melhores filmes da década. Lembrei-me de novo de Jefferson, e foi revendo ‘Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse’, suntuoso melodrama de Vincente Minnelli, do qual meu amigo havia sido um solitário defensor em Porto Alegre, no começo dos anos 1960. ‘Quatro Cavaleiros’ sempre desfrutou de uma má reputação, mas depois de rever o filme numa cópia nova, zero bala, tenho de dar razão a Jefferson. Barroco – e flamboyant, para usar uma definição bem francesa -, ‘Quatro Cavaleiros’ carrega nas tintas políticas e, neste sentido, se assemelha a outro melodrama familiar, ‘Imitação da Vida’, de Douglas Sirk, com o qual compartilha não apenas o tema da família, mas também o choque de dois mundos. No melodrama de Sirk, o tema em discussão é o racismo e o enterro final representa, simbolicamente, o fim de uma época. O de Minnelli se constroi na dialética das bipolaridades – os personages vivem divididos entre a Argentina e a Europa, entre a paz e a guerra (a 2ª), entre o casamento e o adultério, entre a neutralidade e o engajamento (antinazista). Pairando sobre tudo – as cores, o vermelho e o verde -, Minnelli mostra, fantásticos e destrutivos, os cavaleiros bíblicos (a conquista, a guerra, a peste e a morte) como representações da loucura humana, que se instala no seio dessa familia, dividida entre seus dois ramos, o francês e o alemão. A presença dos quatro cavaleiros merece uma reflexão à parte. Minnelli incorpora elementos de ‘Casablanca’ – o triângulo marido, mulher e amante tem como um de seus vértices, no papel de patriota, o mesmo Paul Henreid do clássico de Michael Curtiz -, mas agora eu fiz uma leitura diferente da herança expressionista sobre ‘Quatro Cavaleiros’. Acho, inclusive, que a sueca Ingrid Thulin não está ali por acaso. Bergmaniana de carteirinha, Ingrid faz a ponte com o filme que o próprio Bergman amava mais do que todos os outros – Bergman já homenageara Victor Sjostrom, fazendo do grande diretor de ‘A Carroça Fantasma’ o professor Isak Borg de sua obra-prima ‘Morangos Silvestres’. A maneira como os cavaleiros aparecem e são filmados remete à carroça fantástica de Sjostrom ou, pelo menos, foi assim que revi o filme, emocionado. E o Glenn Ford, gente? Seus papéis em filmes de Fritz Lang, Delmer Daves e Minnelli, para citar só alguns dos diretores importantes com que trabalhou, lhe garantem um lugar de honra na historia do cinema. Glenn Ford não tinha a ‘dureza’ dos grandes machos – Gary Cooper, John Wayne, Humphrey Bogart etc – e, pelo contrário, representava uma face mais humana. Lembro-me de que ele foi hospitalizado em estado grave, há alguns anos. Ainda estará vivo? Vou pesquisar na internet, mas já deixo vocês com este post sobre Minnelli. A Filmoteca do Quartier Latin também exibia em horários alternados – mas eu não consegui encaixar – dois de seus maiores musicais: ‘Sinfonia de Paris’ e ‘Brigadoon’ (A Lenda dos Beijos Perdidos). Minnelli tinha aquele caso de amor com Paris, que lhe forneceu o cenário de grandes filmes – ‘Sinfonia…’, ‘Gigi’ e ‘Quatro Cavaleiros’. Seu balé inspirado na suíte ‘An American in Paris’ reconstitui a cidade pelos olhos de grandes pintores, incluindo Duffy e Renoir. Tanto refinamento, tanta voltagem dramática. Imagino que algumas pessoas, revendo Quatro Cavaleiros’, vão achar o filme excessivo e até ridículo. Lee J. Cobb, supermaquiado, faz o patriarca argentino, Madariaga. Seu personagem, na verdade, é expressionista como os cavaleiros do título. Eu também achei o filme excessivo, e gostei por isso.