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‘O Exílio e o Reino’, Camus em Peter Jackson

Luiz Carlos Merten

08 Março 2010 | 12h13

Último livro de ficção publicado por Albert Camus – e seu único volume de contos –, ‘O Exílio e o Reino’ até hoje é tema de especulação entre os críticos e especialistas que se debruçam sobre a obra do autor. Muita gente se pergunta se Camus teria prosseguido nas narrativas curtas. ‘A Queda’, que deveria integrar a seleção, ganhou versão longa e foi publicado como romance. ‘O Exílio e o Reino’ tem o Brasil por centro. O exílio fala da solidão do estrangeiro, um tema essencial e visceral camusiano. O estrangeiro recusa o papel que a sociedade lhe atribui, como bem sabia Visconti, ao fazer sua versão do livro – o filme, por sinal, está em Paris numa cópia nova. Estava louco para (re)ver, mas não encontrei horário. O reino, segundo Camus, é o território do particular, onde o homem encontra sua suposta felicidade. Por que estou escrevendo isso nesta manhã pós-Oscar? Por causa de ‘Um Olhar do Paraíso’. Já disse quanto fiquei perturbado ao assistir ao novo Peter Jackson. É um diretor que respeito muito. Adaptar/sintetizar a saga monumental de ‘O Senhor dos Aneis’ não foi pouca coisa e os pobres críticos que ironizam o filme de menino fariam melhor psicanalisando-se, embora, em o fazendo, se arriscassem a definitivamente não crescer/amadurecer. Não gosto particularmente de ‘King Kong’, mas nunca deixo de (re)ver o filme quando estou zapeando na TV paga e as imagens do gorila gigante irrompem na tela. A motion capture, que Jackson perfeccionou, permitindo-lhe criar o Gollum, humaniza o macaco e aquele olhar dolorido é de gente. ‘Um Olhar do Paraíso’ foi despachado como um filme de vida após a morte. Só. É um pouco mais. Logo na abertura, antes mesmo da informação de que a protagonista, Susan Salmon, foi assassinada, ela lembra – sua primeira lembrança – do boneco de neve encerrado na sua bola de cristal. O pai, Mark Wahlberg, diz à filha que não chore, porque ele vive feliz, naquele mundo que é perfeito. Ao não reconhecer/aceitar a própria morte, Susan/Saoirse fica presa no seu mundo perfeito, entre a vida e a morte, um limbo de imagens que permite a Jackson exercitar seu gosto por efeitos (e aquilo também pode ser visto como uma viagem pela história da pintura, por exemplo. É brega? Depende do ponto de vista.) O que isso tem a ver com Camus? Tudo, insisto. Pouca gente deve notar, mas logo no começo de ‘Um Olhar do Paraíso’, a personagem de Saoirse ainda é bebê e sua mãe, Rachel Weisz, lê um livro, justamente ‘O Exílio e o Reino’. Mais tarde, Rachel lerá outro livro e será um prosaico manual de auto-ajuda para mães, sobre como criar os filhos. ‘O Exílio e o Reino’ não está ali por acaso. É o guia de Peter Jackson na viagem de ‘Um Olhar do Paraíso’, como o próprio livro de Alice Sebold em que se baseou. Camus se insurgiu contra o rótulo que lhe foi aplicado, de escritor do absurdo. Por meio do absurdo, ele sempre buscou o verdadeiro sentido da vida, mas a conclusão paradoxal é que a vida é vivida melhor se não tiver de fazer sentido. É o tema de ‘Um Olhar do Paraíso’, e não se pode dizer que o ‘autor’ não tenha advertido os críticos. Peter Jackson viu ‘Depois da Vida’, de meu amado Kore-eda, com certeza. O limbo que ele filma é uma forma de refletir sobre o cinema como espetáculo e algo mais, mas o bonito de um filme como este é a ligação entre pai e filha, um no mundo dos vivos e a outra no dos mortos. Cada um tem de renunciar a alguma coisa. Mark Wahlberg tem de deixar a filha ir, ela precisa se desligar dos laços que ainda a prendem à vida, à família. Pode-se encarar isso metafisicamente, e não como manual espírita, como fazem a grande literatura e o grande cinema. Não sei, sinceramente, quanto gostei de ‘Um Olhar no Paraíso’, mas o filme, mesmo não sendo grande, é bom. E complexo. A teia de acasos na caçada ao serial killer e o inesperado de sua ‘punição’ são representações (im)perfeitas do absurdo de Camus. E o elenco é maravilhoso – Saoirse, Wahlberg, Rachel, Susan Sarandon (a avó), o garoto que faz Ray. O beijo, que permite a Susa fazer seu rito de passagem, é aquilo que deveria ter sido o reencontro de Demi Moore e Patrick Swayze, via Whoopi Goldberg, em ‘Ghost – Do Outro Lado da Vida’, se o diretor Jerry Zucker tivesse um pouco mais de talento. Como eu disse, não sei quanto gostei de ‘Um Olhar do Paraíso’, não sei nem mesmo se gostei integralmente do resultado – e o filme é muito ambicioso, certamente mais do que essas ‘reduções’ dos Coen –, mas uma coisa não nego. Gostei bastante de ver ‘Um Olhar do Paraíso’. Gostaria muito de ver de novo, mas não sei se terei tempo, pois o filme já deve estar se despedindo, em horários meio impraticáveis.

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