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Luiz Carlos Merten

06 Novembro 2007 | 16h17

Quando iniciei, no sábado, a série de posts sobre ‘Juventude Transviada’, contei que havia comprado o livro que motivou aquela ‘viagem’ na Virgin, de Nova York, ali em Times Square, quando fui fazer o junkett de ’30 Dias de Noite’, há um mês, mais ou menos. O que não acrescentei é que havia comprado também o DVD de um dos filmes cults da minha VIDA – ‘O Espírito da Colméia’, de Victor Erice, que assisti na Argentina, em 1973. Fiquei siderado quandio vi a Ana Torrent como a menina que, durante a Guerra Civil espanhola assiste ao ‘Frankenstein’ de James Whale e, depois, ao descobrir um soldado republicano ferido, o esconde no celeiro (ou seja lá o que for). A relação da menina com o soldado é uma das coisas mais misteriosas que já vi. A cena que Erice pega de ‘Frankenstein’ é aquela em que o monstro, inocentemente, ao brincar com a garota, termina por atirá-la no rio e só isso já prenuncia o desfecho trágico desta parábola sobre o franquismo e a guerra da Espanha. Sempre tive que ‘El Espiritu de la Colmena’ era um dos grandes filmes do cinema espanhol e mundial. Saura com certeza viu o filme de Erice e utilizou Ana Torrent em outro devaneio poético, não isento de morbidez, ‘Cria Cuervos’. O rosto de Ana Torrent! Poucas crianças conseguiram expressar tanto no cinema. Seus olhos grandes e tristes viraram um assombro para mim. Com o tempo, Erice tornou-se um diretor bissexto, mas não esqueço a emoção que tive em Cannes, em 1992, ao assistir a ‘El Sol nel Membrillo’. O filme não trata de outra coisa se não do esforço de um pintor – António López García – para captar a luz nos frutos de uma árvore que plantou em seu jardim. É nada e é tudo, outro daqueles filmes secretos e visualmente belos, dos quais somente Erice parece possuir o segredo. Passaram-se dez anos e o Erice havia feito somente seu episódio para ‘Ten Minutes Older’. Ouço agora dizer que ele concluiu novo filme – ‘Solilóquio’, que tem também o título de ‘La Morte Rouge’. quando o veremos? Já estou nos cascos, como se diz lá no Sul… Atualmente, o Beaubourg está mostrando, em Paris, uma exposição criada conjuntamente por Erice e Abbas Kiarostami. Mistura pintura, cinema, videoarte. Só espero que ela fique mais um tempo para eu tentar vê-la na volta do Festival de Berlim, em fevereiro. Toda essa história me veio a partir do DVD duplo de ‘O Espírito da Colméia’, que, me informa Antônio Gonçalves Filho, a Versátil poderá lançar no Brasil. Será? Tomara! Além do filme, com aquela fotografia do Luis Cuadrado que bebe na fonte de Goya, tem um monte de extras, incluindo entrevista com o diretor, em que ele explica a gênese de ‘O Espírito da Colméia’ e fala, sem mágoa, de suas ambições autorais que o transformam num marginal dentro do cinema espanhol.