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Cultura » O espelho do Oscar

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Luiz Carlos Merten

22 Abril 2008 | 14h16

Régis faz análises muito interessantes do cinema de Hollywood nos anos 60 e 70, em ambas pegando carona em textos de outros autores. Não conheço os livros que tu citas, ó Régis, mas me parece correta a análise das transformações que estavam ocorrendo no cinema norte-americano, simplesmente a partir dos cinco indicados para melhor filme de 1967. Concordo que, embora ‘No Calor da Noite’, de Norman Jewuison, tenha sido o vencedor da categoria, ‘A Primeira Noite de Um Homem’ (The Graduate), de Mike Nichols, e ‘Uma Rajada de Balas’ (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn, foram os filmes que restaram daquela seleção. Para o meu gosto pessoal, o segundo ainda é melhor, tendo reinstaurado o gosto pelo cinema de gângsteres que culminaria, no começo dos 70, com os Oscars para os ‘Chefões’ – melhor filme e ator (Brando), o primeiro; melhor filme e diretor (Coppola), o segundo. Mas o filme de Mike Nichols foi decisivo para uma liberação dos costumes – da própria linguagem ao abordar o sexo -, à qual não acredito que tenha sido estranho o precedente de ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, primeiro longa do diretor, adaptado da peça de Edward Albee, com o casal Burton/Taylor, sobre a lavagem de roupa suja do casal George/Martha. Hollywood já vinha mudando, com os sucessivos ataques ao Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência nas telas. Era todo um movimento que havia sido desencadeado pela literatura (‘On the Road’, de Kerouac, no fim dos anos 40), o teatyro (as peças de Tennessee Williams, Eugene O’Neill e Arthur Miller) e a música, ou melhor, o rock (Bill Haley e Elvis Presley nos 50), sem falar no Preminger, que já vinha martelando o Código há tempos. Mas eu confesso que o que mais impressiona é o Oscar de 68. O mundo havia ardido no célebre Maio, e o que foi que a Academia de Hollywood premiou em abril do ano seguinte, para representar o melhor de 68? ‘Oliver!’, a versão musical de ‘Oliver Twist’, de Carol Reed (o filme, não o romance, que é de Dickens). Quais eram os demais indicados? ‘Funny Girl’, ‘Romeu e Julieta’, ‘O Leão no Inverno’ e ‘Rachel, Rachel’. Nenhum desses filmes representa minimamente as transformações do mundo naquele ano que não termina nunca, nem o de Paul Newman. É como se o espelho do Oscar quisesse negar a realidade. Até o Oscar de melhor filme estrangeiro foi para o monumental (e acadêmico) ‘Guerra e Paz’, do russo Bondartchuk. As mudanças só apareceram em 1970, quando foram anunciados os vencedotres de 1969 e deu ‘Perdidos na Noite’, de John Schlesinger, na cabeça (com ‘Z’, de Costa-Gavras, como melhor filme estrangeiro).