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Cultura » O escultor de horizontes

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Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2007 | 00h17

Queria que este post saísse com a data de sábado, mas agora já é quase meia-noite e ele vai sair com a data de domingo. Não faz mal. É sobre o centenário de Oscar Niemeyer. Fui estudante de arquitetura, vocês sabem, e como tal tive de estudar a obra do velho. É gênio, mesmo que eu, cada vez que pego chuva no Memorial da America Latina – é perseguição, mas no último Festival de Cinema Latino-Americano, me molhei duas ou três vezes – fique me maldizendo pelo Niemeyer ser tão plástico e tão despreocupado com detalhes como o conforto das pessoas. Não tem ali nenhuma marquise para proteger da chuva nem do sol (em caso oposto). Esse é um tipo de crítica que muita gente faz a ele, mas acho um luxo, para nós, brasileiros, termos um dos dez maiores gênios vivos e ainda é esse cara que, aos cem anos, não renega o comunismo e ainda acredita na inevitabilidade do socialismo. Não li a matéria de Flávia Guerra no caderno especial que o ‘Estado’ dedicou ao centenário de Oscar Niemeyer, mas amei o título que compara o Copan, criação do arquiteto no Centro de São Paulo, ao Edifício Master de Eduardo Coutinho, habitado por tanta gente gauche na vida. Achei muito legal a idéia da Flávia e espero que ela, com sua sensibilidade para falar de gente, tenha feito a grande matéria que o assunto pedia. Gosto muito daquele recente documentário sobre Niemeyer. Poderia ser hagiográfico, mas o próprio Niemeyer não se leva excessivamente a sério e subverte seu mito com duas ou três barbaridades espontâneas que diz. Essa gente de direita que tem de engolir o gênio do Niemeyer pode até querer me desqualificar. Mas, também, esses infelizes têm como gênio aquele cara da Globo (vocês sabem quem). Não vou falar em ideologia, mas em cinema. ‘Star Wars’, ‘Guerra nas Estrelas, a série de George Lucas. Há mais de 20 anos, quase 25, quero crer que ele tenha sido premonitório. O que é o Império, senão a hegemonia sócio/econômica/ideológica que hoje dita as cartas? Na ficção de Lucas, os rebeldes conseguem destruir o Império e restaurar a República. Na segunda trilogia ‘Star Wars’, mesmo que seja cronologicamente anterior à primeira que foi realizada, Lucas buscou um claro paralelismo com a ‘América’ (os EUA) de George W. Bush. Muitos coleguinhas caíram matando, mas são os mesmos cretinos que valorizam o mínimo esforço ideológico em obras muito menos convincentes. O que Niemeyer tem a ver com George Lucas e ‘Star Wars’? A crença e também a arquitetura. Ambos, o arquiteto e a série, obra de outro grande visionário, esculpem horizontes e foi esse o título – ‘Escultor de Horizontes’ – que o ‘Estado’ apropriadamente deu ao ‘nosso’ especial sobre Niemeyer.

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