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Luiz Carlos Merten

14 Julho 2009 | 18h31

‘Harry Potter e o Enigma do Príncipe’, sexto filme da série, é o melhor de todos até agora. Já ouço aí o Fábio Negro dizendo – ‘Grande coisa! É m… mesmo.’ Não é. Não gosto dos dois primeiros filmes como cinema, mas a série foi melhorando com Alfonso Cuarón no terceiro, ‘O Prisioneiro de Azkaban’, e a partir daí deslanchou. O sexto filme é o primeiro após o encerramento da série de livros, portanto depois que o novelo já foi desenrolado e os fãs já sabem o desfecho. Neste sentido, foi curioso assistir a ‘O Enigma do Prpíncipe’ ao lado de uma garota fantasiada de Hermione e, duas poltronas para lá, um Dumbledore que parecia tão velho quanto o personagem de Michael Gambon. Tudo bem, o cara era coroa, mas a maquiagem ajudou no envelhecimento. Uma sessão de freaks, de gente bizarra, mais uma vez alguém poderá dizer (o Fábio?). Mas a plateia que sabia tudo ia sendo apanhada e conduzida pelo tom do relato. David Yates sabe que esse sexto filme é o mais sombrio de todos, até agora. Valdemort não aparece, mas sua conspiração está em marcha e os Comensais da Morte estão agindo. Há uma cena excepcionalmente violenta, uma execução nos moldes do esquadrão da morte, o que é no mínimo inadequado para uma produção voltada ao público infanto-juvenil, mas, por isso mesmo, ‘O Enigma do Príncipe’ é impróprio até 12 anos, ao contrário de ‘A Ordem da Fênix’, censura livre. Toda a arquitetura dramática gira em torno da tarefa que Dumbledore atribuiu a Harry, que é se aproximar do novo professor em Hogwarts, Horácio, para descobrir uma certa memória que foi adulterada de Valdemort. Nela pode estar a solução do enigma para evitar que o bruxo vença. A trama é essa, de novo um embate entre a magia da luz e das sombras, mas isso é fundo porque na realidade é sobre adolescentes que estão fazendo suas descobertas (e tendo de cravar suas primeiras escolhas morais). Sou meio exagerado, reconheço, mas, após a execução, o filme avança mais uns cinco ou dez minutos e essa parte é preciosa. Chega de efeitos. Apenas um diálogo de Harry e Hermione, no alto da torre de Hogwarts, num raro momento em que as nuvens pressagas se abriram e o pequeno bruxo pode contemplar a paisagem para descobrir sua beleza. O que ele diz, sobre a solidão de ser o escolhido, provoca a reação de Hermione e a menina, mais amadurecida, quase mulher, diz uma coisa linda sobre ser solidário. A cena termina com os três, Harry, Hermione e Ron, que nada diz, de costas para a câmera. Me baixou uma serenidade, vendo aquilo. A calma que precede a tempestade. Uma epifania, por que não? E o mais bacana é que aquilo não é conclusivo de nada. Atingir esse equilíbrio no final em aberto me pareceu um toque de mestre do diretor. Hoje pela manhã, como já disse, fui à sessão de imprensa da versão em 3D. Tudo fica muito mais grandioso, mas, no limite, como em ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’, de Christopher Nolan, nem toda a parafernália do mundo inibe que a fantasia, afinal, fale de coisas reais (e humanas). Há em Harry uma vulnerabilidade que me encanta, sua nostalgia da mãe, que morreu para salvá-lo. Tem gente que acha que Daniel Radcliffe não é bom ator. Discordo – acho que ele é bom, sim, e um dos encantos da série, e isso foi uma coisa traçada por Chris Columbus nos dois primeiros filmes (vale lembrar), está justamente em contrapor o naturalismo da garotada ao british accent do elenco estelar, formado por feras do teatro e cinema ingleses. Falei em naturalismo, mas o confronto é inevitável e aponta para a tragédia. De volta à série de livros, criou-se uma polêmica. ‘Harry Potter’ virou fenômeno editorial, enriqueceu muita gente (a autora, J.K. Rowling, principalmente). Mas é só isso, fogo de palha, ou o filme realmente motiva a ler uma garotada que foi condicionada pela civilização da imagem? Será essa a pergunta correta? Ou será outra? O que a série, afinal, agrega a seus jovens leitores? Quer queiram, quer não, é a literatura de uma geração que foi crescendo com seu herói da ficção. Toda geração tem isso e, se ‘Harry Potter’ vai virar clássico, como outras leituras de épocas anteriores, só o tempo dirá.

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