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Cultura » O Engenho de Zé Lins

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Luiz Carlos Merten

14 Agosto 2007 | 10h21

Não tive tempo para voltar a postar, ontem, o que significa que o blog ficou restrito aos comentários da manhã, sobre a inaguração do 35° Festival de Gramado, no domingo à noite. Mas minha tarde foi proveitosa. Assisti, finalmente, a O Engenho de Zé Lins, de Vladimir Carvalho, sobre o autor de Menino de Engenho, que muito me tocou. Achei toda a parte final, da amizade entre Thiago de Melo e a dedicação do poeta, acompanhando os últimos momentos do escritor, uma coisa emocionante. O destroçamento físico de Zé Lins foi um desses flagelos que atingem certas pessoas. A vida pode ser muito cruel. De onde se retira a força para enfrentar tamanha adversidade? Vocês sabem como eu viajo. Pensei em meu amigo Tuio Becker, portador do Mal de Alzheimer. Em Annie Girardot, que sofre da mesma doença. Não sei o que é pior. Thiago de Melo escondendo as fezes do amigo ou as pessoas próximas que, nos olhos do portador de Alzheimer, descobrem o esquecimento. Quando Thiago de Melo e Ariano Suassuna dizem que Zé Lins foi, não apenas um grande personagem, mas ele próprio uma figura extraordinária, que poderia sair de suas melhores páginas de ficção, aquilo me deu uma outra percepção da obra do autor. Gostei muito de ver Walter Lima Jr.contextualizar a influência de Zé Lins sobre Gláuber (Deus e o Diabo na Terra do Sol). Gostei de ver o comentário sobre a ligação de Zé Lins e Gilberto Freyre, como eles eram próximos, íntimos e sensuais, sem que houvesse homossexualismo entre ambos. É outro flagelo, agora da modernidade. Hoje em dia dois homens não podem mais ser camaradas sem que se levante a suspeita de viadagem. Confesso que só senti falta de uma coisa. Revi há um ou dois anos, no Festival do Rio, Menino de Engenho, e acho que o filme envelheceu. Curioso – revendo ontem suas cenas, achei muito bonito. É um filme melhor nas partes que no todo. Intercalei uma coisa que não tem nada a ver com aquilo de que senti falta. Foi de Cacá Diegues. Todas aquelas cenas que mostram a destruição do engenho de Zé Lins como metáfora da sub-estima que ameaça sua obra me pareceram muito interessantes. Não sei o que o Vladimir diria disso, mas acho que ninguém foi mais fiel a Zé Lins do que o alagoano Cacá em Joanna Francesa. Aquelas imagens dos canaviais, a frase do velho coronel para Aureliano (Carlos Kroeber), dizendo que aquele é um mundo em extinção – tema da obra do escritor -, um fogo morto, como o título do romance, é uma coisa que me acompanha sempre. Achei muito legal quando Ariano Suassuna diz que o poder público tem a obrigação de resgatar o engenho de Zé Lins, um pouco pelo valor arquitetônico, mas também para reconstruir, metaforicamente, a grandeza do escritor e a complexidade do universo que ele expressou em páginas definitivas da literatura brasileira. Gostei demais, Vladimir.

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