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O engajamento (poético, político) dos Taviani e o adeus a Vittorio

Luiz Carlos Merten

15 Abril 2018 | 15h47

Podia ter passado sem essa. Enviei os filmes na TV de amanhã para Maria Fernanda Rodrigues e me veio a resposta – ‘Viste que morreu o Vittorio Taviani? Ontem o Milos Forman, hoje o irmão Taviani. Resolvi fazer uma pesquisa na internet – no ano passado, quando fui ver Uma Questão Pessoal na Mostra surpreendi-me que o crédito de direção não era para Paolo Vittorio. Devia ser por isso, então. Vittorio, o mais velho, já estava muito doente. Morreu em Roma, aos 88 anos. O mais incrível é que minha pesquisa me levou a lugares que não esperava. Um cara que odeia Magnólia e aproveita para me esculhambar em regra. Me chama de mané, de escroto e ainda diz que bloqueei os comentários dele no blog. Não vi a data, mas acho que é coisa antiga. Tanto tempo depois (quanto?) esse ódio veio me assombrar. Sinto, belo, mas a censura não é minha. É política do Estado, nos blogs, vetar comentários, ou imagino que seja. Por que vetariam só os meus? Enfim, havia gostado de Boogie Nights – Prazer Sem Limites e Mangólia e depois passei um tempão sem ligar muito para o cinema de Paul Thomas Anderson. Gostei pontualmente de Embriagado de Amor e, agora, de Trama Fantasma. Escroto, eu? Mané até acho que seja. Estou fragilizado pela cirurgia, pela dor. Chorei pelo Milos Forman, pelo Vittorio, a quem entrevistei tantas vezes com o irmão Paolo. Em Cannes, Berlim. A última vez que os entrevistei pessoalmente foi em Berlim, quando receberam o Urso de Ouro por César Deve Morrer. Orlando Margarido compunha a mesa. Ele ficou de me visitar hoje. Faremos nosso tributo a Vittorio. Talvez me engane, mas meu primeiro filme dos irmãos Taviani eu o vi em Montevidéu, no começo dos anos 1970. San Michele Aveva Un Gallo, com Luigi Brogi, sobre o fracasso das utopias revolucionárias. E, depois, Allonsanfan, a Itália pós-napoleônica e as sociedades secretas esmagadas pelos soberanos restaurados. Mastroianni que coloca sua túnica vermelha para morrer. A morte, vista pelo olhar do outro, é transformada em ato revolucionário. Nas vezes em que os entrevistei sozinho, e foram algumas, por telefone, sempre me defini como viscontiano de carteirinha. Paolo Vittorio eram rossellinianos e o grande Roberto presidia o júri que lhes outorgou a Palma de Ouro de 1977, por Pai Patrão. Rossellini e a televisão. Thiérry Frémaux vai à memória do festival e no livro Selection Oficcielle exuma o fato de que ele usou de toda a sua autoridade de pai do cinema moderno, segundo Godard e Truffaut, para bancar a candidatura dos Taviani. O filme é uma adaptação da obra homônima do poeta e escritor sardo Gavino Leda. Analfabeto, ele se tornou um reputado intelectual e professor de linguística. O próprio Gavino conta como o pai invadiu a sala de aula e usando a vara de pastor usou sobre ele a sua autoridade de pai patrão, impedindo-o de estudar. Algo de muito forte se passa na abertura e no encerramento de Padre Padrone – com o garoto da história e o espectador, submetido a uma visceral experiência de cinema nas ‘bordas’ (ficção, documentário), mas eu confesso que os ‘meus’ filmes dos Taviani são A Noite de São Lourenço e Kaos. A noite das estrelas cadentes, ecos do mundo mítico. São Lourenço transforma em conto de fadas um curta dos próprios Taviani, San Miniato, Giuglio 44, inspirado num episódio pivotal de Paisà. Os nazistas exigem retaliação pela morte de um de seus soldados. A história é narrada por uma mulher que a viveu ainda criança e agora a reconta para os filhos. O mundo grego, Homero. Os partisans despejam suas lanças sobre os camisas pretas, como nas velhas disputas guerreiras. E, num momento mágico, cessam as hostilidades para que os dois grupos em litígio deem água a seus feridos. Kaos, Pirandello, a tragédia histórica da Sicília. A mãe, Margarita Lozano, renega o filho amoroso porque ele nasceu de um estupro e a simples presença dele a confronta com a vergonha. E Mal di Luna, o lobisomem. (Em Rocco, existe a cena em que Alain Delon pede ao irmão, Lucca, que não se esqueça do paese, e define a Lucânia como a terra delle olive e do mal di luna.) Pode-se refletir sobre o sentido do engajamento político somente a partir da militância dos Taviani. Foi-se Vittorio, permanece Paolo. Esses dias andam duros. Perdas e perdas, mas basta fechar os olhos para que as imagens, eternizadas no inconsciente, se renovem.