Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O encanto de ‘Nicolau’

Cultura

Luiz Carlos Merten

05 Julho 2010 | 12h13

Cá estou de volta em São Paulo. Cheguei ontem de manhã, mal tive tempo de passar em casa e vim para o jornal, onde me esperavam os filmes na TV. Almocei com minha filha e genro, fui ver um Ozu (‘Ervas Flutuantes’) e emendei com o ‘Pequeno Nicolau’, que fui ver à noite com meu amigo e editor, Dib Carneiro. Além de autor (premiado) de teatro, Dib é crítico de teatro infantil. Nunca o vi rir tanto num filme, e não era só ele. A plateia inteira do Frei Caneca se divertia loucamente com Nicolas e seus colegas de classe. No Rio, quando o entrevistei, o diretor Laurent Tirard me disse que encontrou seu Nicolas – Maxime Godart – logo de cara, mas continuou entrevistando centenas de garotos, um pouco para checar se fizera a escolha certa, mas também para compor a turma da sala de aula. A direção de atores infantis de ‘O Pequeno Nicolau’ é brilhante, mas dois dos meninos me encantam particularmente – Clotário, o burrinho da classe, que a simples menção do seu nome já se levanta e vai para o canto do castigo, e o sabichão, que não pode apanhar por causa dos óculos. Sandrine Kiberlain, a Mademoiselle Chambon, é ótima no papel da maitresse, professora, e os créditos são os melhores que vi em muito, muito tempo. A Imovision está lançando ‘Nicolau’ em cópias dubladas, à espera de que o filme vire opção de férias, conquistando o público infantil, mas tenho a impressão de que se trata de programa para o público mais adulto. Havia velhinhos assistindo a ‘Nicolau’, com certeza gente que já conhecia o personagem dos livros da dupla Goscinny/Sempé e foi conferir o resultado. Muito bacana mesmo. Pessoalmente, adoro a forma como Laurent Tirard se apropria do personagem, e da obra de encomenda, para fazer um filme autoral. No começo, Nicolas não sabe o que quer fazer na vida; no desfecho, faz uma escolha, e é a do diretor. Viajei nas lembranças, inclusive cinematográficas. A bicicleta é muito importante nas primeiras cenas e elas evocam Jacques Tati e seu M. Hulot, da mesma forma que a gangue dos meninos, os encontros clandestinos no ‘campinho’, lembram ‘A Guerrra dos Botões’, de Yves Robert. Quem, como eu, está na faixa dos 60, com certeza se lembra daquele filme. Eram os anos da nouvelle vague e vinha Yves Robert com uma visão da infância que diferia radicalmente das de Truffaut (‘Os Incompreendidos’) e Malle (‘Zazie no Metrô’), mas era tão bonita. Nunca mais revi ‘A Guerra dos Botões’. Não vi nem o remake, que me disseram que era muito ruim. Tenho carinho por Yves Robert, reconheço. Acho o loiro, alto, de sapato preto engraçado e me encantam suas adaptações de Pagnol (‘A Glória de Meu Pai’ e ‘O Castelo de Minha Mãe’). O bom de ‘O Pequeno Nicolas’ é que, além das próprias qualidades, me impulsionou a muitas boas lembranças.