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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2010 | 09h18

Que zona! O evento de Oliver Stone que deveria ter ocorrido ontem na FAAP ficou só na vontade. O voo atrasou e a chegada do diretor de ‘Ao Sul da Fronteira’ – consequentemente, a sua agenda – foram sendo transferidos. Às 10 da noite, Claudia Belém, da Belemcom, que controlava a agenda, e o Maneco, assessor da Europa, cancelaram o encontro que ele teria com jornalistas, transferindo-o – talvez – para amanhã, se Stone conseguir regressar ao Brasil. Explico. Ontem, viajando num jato privado, ele chegou do Equador. Desembarcou em Guarulhos e esbarrou na imigração, por falta de documentação. Stone não teria  visto de entrada e também teria trazido material de filmagem que precisaria de autorização. Estou colocando no passado imperfeito porque tudo isso eram boatos entreouvidos nos corredores da FAAP. Boatos não faltavam, incluindo informações desencontradas sobre quem, afinal, pagava a viagem (uma certa embaixada de país sul-americano?). O filme distribuído pela Europa também pertence, por acordo de direitos para o País, a Luiz Carlos Barreto, o que é outra informação que precisa ser checada. (Não sabia disso.) Sei que Stone não deu sua coletiva nem a aula magna esperada pelos alunos da faculdade. Se conseguiu se desembaraçar da imigração, ele viajou hoje bem cedo (6h30) para Brasília, onde teria – está tendo? – encontro com Lula. À tarde, vai a Cochabamba e somente amanhã talvez regresse a São Paulo, espero que sem tumultuar a agenda já acertada da delegação do cinema francês que chega para o Festival Varilux. Todo esse tumulto ‘stoniano’ termina desviando a atenção do filme. Você já ouviu as vozes – e revistas – de sempre esculhambarem o documentário de Stone. Tem gengte até que diz que é chapa branca, pró-Chavez. O presidente da Venezuela ocupa toda a primeira parte porque é o caso emblemático do que Stone quer dizer sobre os presidentes ‘bolivarianos’ que estão mudando a América Latina (e do Sul), contestando o poder dos EUA e, por isso mesmo, sendo ridicularizados, ou pelo menos colocados em xeque, pela imprensa. O filme abre-se com a apresentadora de uma TV dos EUA dizendo os maiores absurdos sobre Hugo Chavez. A impunidade com que ela e seus colegas aviltam o sagrado (pela Constituição) direito de informação tem seu contraponto na entrevista de Michael Moorre, que cobra de outro apresentador por que não fez sua lição de casa, exigindo explicações do ex-presidente George W. Bush, que usou todas aquelas falsas justificativas para invadir o Iraque. Um Chavez todo mundo se acha no direito de espinafrar, mas um Bush, celerado como era, contava com a convivência da imprensa. ‘Ao Sul da Fronteira’ é sobre isso, não propriamente sobre Chavez nem Evo Morales nem Cristina Kirchner nem Lula (reduzido a mero coadjuvante e ainda rotulado, ha-ha, como ‘centro-direita’). Neste sentido, é interessante, claro, mesmo que, cinematograficamente, seja discutível. A primeira parte é sobre Chavez e traz dados que são incontestáveis. A turma que exige ‘isenção’ vai dizer que Stone, como Moore, bate e ouve só um lado. Moore até que tenta ouvir o outro, correndo atrás de financistas e políticos que fogem dele como Diabo da cruz. Stone, sim, marca posição, convencido – é o subtexto de seu filme – que está oferecendo matéria de contra-informação, já que a imprensa não faz outra coisa senão expor esse outro lado que discute. Isso vai dar o que falar, com certeza. E quanto a Chavez ser um bufão, o palhaço assassino como diz um apresentador norte-americano… Tradicionalmente, o bobo da corte era o único autorizado a contestar a autoridade do governante autoritário. Paulo Francis não viveu para comentar o fenômeno Chavez. Pergunto-me o que ele diria. Francis sempre teve aquela posição – a URSS era uma m… para os russos (e soviéticos em geral), mas representava um limite ao poder imperial dos EUA. Hoje, está comprovado que tudo o que os EUA diziam da URSS era verdade, mas a recíproca também é verdadeira. As distorções do capitalisamo só agradam, logicamente, a quem se beneficia delas. O ‘palhaço’ Chavez dizia de Bush o que todo mundo sabia – e mais um pouco que foi comprovado depois – e, contestado, caçado, vilipendiado, sempre teve (e ainda tem) respaldo popular em seu país. Aliás, o que o filme deixa claro é que todos esses governantes ‘odiados’ foram eleitos pelo voto popular. Mesmo não gostando de ‘Ao Sul da Fronteira’, o filme é interessante, sim. E tem momentos ótimos. Stone perguntando a Cristina Kirchner quantos sapatos tem, de certo buscando, inconscientemente, uma associação dela com Imelda Marcos. Ela diz que nunca contou, mas observa – por que nunca ninguém pergunta a um governante homem quantas calças, ou quantos sapatos tem?