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Luiz Carlos Merten

13 Maio 2009 | 20h01

CANNES – Assisti agora à noite ao primeiro filme da competição, ‘Nuits d’Ivresse Printanière’, do chinês Lou Ye. Cannes 2009 debutou sob o signo da encrenca. O diretor é considerado enfant terrible – persona non grata? – em Pequim. Sua experiência ‘cannoise’ anterior foi com ‘Summer Palace’, que as autoridades chinesas tentaram interditar, por seu enfoque dos protestos de Tienanmen, a Praça da Paz Celestial, em 1989. O novo filme começa com dois sujeitos num carro. Eles param para urinar numa ponte e, no minuto seguinte, estão numa cama, numa cena de sexo hard, nos limites do explícito. Um deles é casado com uma mulher. Ela contrata um sujeito para investigar a infidelidade do marido. Toma um choque ao descobrir que o amante é ‘ele’, outro homem. O ‘detetive’, que também é supostamente hetero, se envolve com o tal amante. Num determinado, forma-se um trio, dois homens e uma mulher. Toda a narrativa é pontuada por poemas que se referem à impossibilidade de amar, experimentada pelo protagonista masculino, o gay assumido e que inclusive canta num show vestido como mulher. No dossiê de imprensa, Lou Ye conta que a sociedade chinesa é muito repressora, mas as mudanças comportamentais avançam. Num documento de 2001, regulamentando o atendimento de saúde pública, o homossexualismo ainda era rotulado como doença mental. Mas, em 2006, o ministro da Saúde aceitou dialogar com associações de homossexuais para enfrentar o problema da aids, que é forte no país. O triângulo impossível evoca ‘Jules e Jim’, Uma Mulher para Dois, de François Truffaut, que Lou Ye reconhece como um de seus filmes favoritos. ‘Nuits d’Ivresse’ é um filme ‘feio’. Feito com tecnologia digital, passa uma sensação de desleixo, de urgência e clandestinidade, como se as próprias imagens fossem roubadas ao universo meio marginal que os personagens frequentam. Ninguém aplaudiu no final. Tirando a origem – e o ‘escândalo’ que não houve – a interrogação é: por que Thierry Frémaux selecionou este filme? O que ele viu que nós perdemos? A dúvida cruel, amanhã de manhã, é a seguinte. ‘Fish Tank’, de Andrea Arnold, prossegue a competição. É uma diretora promissora, de um longa, ‘Red Road’, bem cotado pelo júri que atribuiu a Caméra d’Or (no ano em que fui jurado). Mas será preciso escolher. Na mesma hora estará passando ‘Tetro’, o novo Coppola, na Quinzena dos Realizadores.