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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2008 | 12h04

Preparem-se porque este post vai ser longo. Vocês pediram e lá vou eu falar de ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’. Tomei um choque ao rever o filme do Glauber na semana passada, aliás dois, o que me levou a ver de novo ‘O Dragão’ na sexta-feira. Sabia do incêndio da matriz num laboratório francês e dos esforços para reconstituir o filme a partir de cópias buscadas nos quatro cantos do mundo, mas não imaginava, perdoem-me, que fosse ver aquela coisa horrorosa, uma cópia híbrida de francês e português que me deixou a impressão de colcha de retalhos. Nem da cor gostei muito, embora a dramaticidade daquele vestido roxo de Odete Lara assombre meu imaginário há quase 40 anos. Já fiquei de cara quando o letreiro inicial explica a opção de conservar o glossário em francês, mas o letreiro fala em três tópicos, A, B e C, quando na verdade eles são cinco, de A a E. Não entendi a redução e também fiquei absolutamente confuso – meu segundo choque – com uma descoberta que fiz. A memória é traiçoeira, todo mundo sabe, mas na minha lembrança, na cena do duelo de sabre entre Coirana e Antônio das Mortes, eu me lembrava de dois movimentos que não reencontrei agora. Dois movimentos laterais de câmera, até raros, porque o filme se constrói por meio de planos fixos, com muita movimentação interior, mas eu me lembrava perfeitamente de um movimento sobre o eixo à esquerda e outro à direita, com a mesma duração, o que criava um ritmo – uma montagem métrica, eisensteiniana -, que me parecia muito interessante. Será que sonhei isso? Minha lembrança também me fazia ver ‘O Dragão’ como favorito, entre os filmes de Glauber, mas agora não estou mais muito certo. O filme me pareceu datado. Toda a parte ideológica, digamos assim, me pareceu disparatada. Como é tudo muito metafórico – alguém poderá dizer alegórico, mas a alegoria usa uma coisa para falar de outra e Glauber, neste sentido, me parece muito concreto –, o esquematismo das situações e dos personagens, somado à discontinuidade que o diretor absorveu de Godard (e transformou numa coisa própria, como forma de refletir sobre a relação entre colonizador e colonizado), tudo isso me desconcertou, mais do que fascinou. Achei curioso que Glauber, tão revolucionário, acusasse logo a ressaca de Maio de 68, já que seu filme não acredita mais nos poderes auto-suficientes do povo, exaltados na canção final de ‘Deus e o Diabo’. O próprio Antônio das Mortes passa por uma crise de consciência, motivada um pouco pelo encontro com Lampião e mais pelo confronto com a Beata, que o força a olhar para si mesmo como braço armado da oligarquia contra o povo. Este novo Antônio das Mortes vai necessitar de uma aliança para seu projeto – ou projeto do diretor – de salvação do Nordeste. Glauber cria dois santos guerreiros – o místico e não politizado Antônio e a vanguarda intelectual, no sentido gramsciano, representada pelo professor. Mais 68, impossível. Antônio volta a ser interpretado por Maurício do Valle, que tem um physique du rôle impressionante, e Othon Bastos, que já fora Corisco, faz agora o professor, apaixonado pela mítica Laura (Odete Lara), que o coronel cego (Jofre Soares) quer transformar em luz de seus olhos. Confesso que o que mais gostei foi da concepção de espaço do filme. Se ele tem uma estrutura bipolar, como sempre em Glauber – Deus e o Diabo, o dragão e o santo guerreiro -, tem também dois espaços, a cidadezinha e a gruta lá no alto, com o sertão no meio. Onde foi que Glauber descobriu aquela gruta, com a cidade ao fundo, lá embaixo e ao longe? Aquilo é maravilhoso, mas os excessos, que me encantavam, me foram fatais. Juro por Deus – o filme que eu havia (re)criado no meu inconsciente era melhor do que o que vi duas vezes na semana passada.

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