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Luiz Carlos Merten

24 Julho 2011 | 12h25

Foi uma das minhas piores experiências recentes. Tenho grande respeito e admiração pelo Claude Lanzmann que fez ‘Shoah’. Me propuseram uma entrevista com o velho e eu topei, claro, apesar da pneumonia. ´Foi há quase um mës, na volta dele da Flip. Houve sei lá que desencontro e tive de esperar mais de meia hora. Mais do que irritado, fiquei debilitado. Lanzmann, quando chegou, estava com frio – e ele estava irritado. Depois da polêmica com o mediador de sua mesa em Paraty, Lanzmann me deu a impressão de que estava no limite com o Brasil. Ele queria falar de seu livro ‘A Lebre da Patagônia’, eu queria falar de ‘Shoah’. Admiti que folheara o livro e lera alguns capítulos. Tudo o que eu perguntava, ele dizia ‘Se o senhor tivesse lido o livro…’ A explosão veio quando perguntei sobre o processo de montagem de ‘Shoah’. Queria saber quem montara o filme com ele. Lanzmann pareceu-me que ia ter uma apoplexia. ‘Eu filmei, eu montei!’ Por que estou relatando isso? Por causa de Lírio Ferreira. Revi ontem pela manhã, no Canal Brasil, ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’. Gosto muito de vários desses documentários musicais que já se constituíram numa tendência do cinema brasileiro recente – ‘Uma Noite em 67’, ‘Dzi Croquettes’ etc –, mas tenho uma queda especial pelo ‘Homem’. Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, o dr. do baião. Embora não fuja ao formato de entrevistas, o filme me encanta. Lírio fez o filme a pedido de Denise Dummont, filha de Teixeira. Ela foi criada pelo pai, depois que a mulher o abandonou por outro. Tiveram sempre uma relação complicada. Denise conta que só no último dia da vida de seu pai – mas ela não sabia que aquilo era uma despedida –, ambos conseguiram se sentar, tomar um drinque e conversar, sem amarguras, cobranças nem ressentimentos. O filme é cheio de cenas lindas. David Byrne fala de Humberto Teixeira como ‘o invisível’. Toda visibilidade estava sempre em Luis Gonzaga. Lembrei-me, coisa mais atravessada, de Krszystof Kieslowski, que me disse que filmava para mostrar o invisível, para dar voz ao indizível. Na cena mais bela, Denise conversa com a mãe, para ouvir a sua versão, porque a abandonou. Não são apenas mãe e filha, são duas mulheres que falam de relações, de afeto. E a mãe vai ao piano, e toca, Fala do ex-marido, que abandonou, como gênio. ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’ faz ligações muito profundas entre Humberto Teixeira e outras grandes figuras da MPB, entre a música, o baião, e outras vertentes artísticas, incluindo o cinema, e o Cinema Novo. É um filme muito bem montado, por Mair Tavares e tem um segundo montador que não me lembro quem é, sorry. Apesar da música, do personagem, não consigo gostar muito do primeiro longa de Lírio Ferreira, ‘Baile Perfumado’. O filme é narrado segundo regras mínimas, na verdade é mal narrado, aos trambolhões. Gosto bem mais de ‘Árido Movie’, embora me desagrade justamente o desfecho, com aquela instalação. Mas ‘Árido Movie’ é um filme que me encanta pela montagem. Devo ter visto umas dez vezes pela montagem, assinada por Vânia Debs. Dois filmes tão bem montados – três, se incluirmos o ‘Cartola’ – e montados por colaboradores diferentes. Por maior que seja a participação de Vânia, de Mair, imagino que Lírio participe do processo (e muito). Não creio que Claude Lanzmann tenha montado sozinho as mais de nove horas de ‘Shoah’. Stanley Kubrick, para quem o cinema era montagem, teve diferentes montadores ao longo de sua carreira. Kubrick nunca negou o aporte de seus montadores. Lanzmann estava irritado. Gostaria que a conversa com ele tivesse sido melhor, gostaria que eu estivesse em melhores condições. O post virou essa conversa atravessada sobre montagem. Mas Deus que ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’ é lindo! E Humberto Teixeira – ‘Asa Branca’, ‘Açum Preto’. ‘Mas açum preto, cego dos olhos/não vendo a luz, ai, canta melhor…’ É o que mais gosto em ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’, de Danny Boyle. Quando o irmão salva o protagonista de ser cego, para que ele cante melhor, pedindo esmolas, como aquele outro menino, que não teve tanta sorte. Choro cada vez que vejo aquilo, mas, juro, me lembro sempre é do ‘Açum Preto’.