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O distribuidor do ano

Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2016 | 00h30

Não tem o homem do ano? Pois tem o distribuidor, também. Cá estou, de volta a casa. Cheguei à tarde, fui ao jornal e passei o restante do dia correndo atrás de Márcio Fraccaroli, da Paris Filmes, que recebe nesta terça, 18, em Miami, na ShowEast, o prêmio de distribuidor independente do ano. É a primeira vez – ever – que um latino, e brasileiro, recebe a distinção. Cinema como negócio, mercado. A Paris, com a Downtown, talvez seja hoje a maior parceira do cinema brasileiro, mas não o autoral. Cinema de mercado, blockbusters, e não só. Conheço Márcio há quantos anos? Ele já trouxe muito Woody Allen, muito Roman Polanski para o mercado brasileiro. Acho interessante quando me diz que cada filme tem seu tamanho. Não se pode esperar que todos os filmes brasileiros – as comédias – façam milhões de espectadores e virem blockbusters. Júlia Rezende faz milhões com a franquia Meu Passado me Condena, fez 30 mil com Ponte Aérea – que considero seu melhor filme – e atingiu 650 mil com O Namorado de Minha Mulher, que não é, nem de longe, uma comédia rasgada de Ingrid Guimarães. Entre Idas e Vindas, de José Eduardo Belmonte, também não é, e fez quantos? 300/400 mil espectadores. Essa Ingrid é poderosa. Márcio Fraccaroli é um distribuidor independente. Não deveria ser louco de afrontar as Majors, mas eventualmente afronta, e se dá bem. Sei de gente que odeia a Paris Filmes, com seu share – participação no mercado -, mas não sou romântico a ponto de não saber que cinema é arte e é indústria. O Festival do Rio abrigou um Talent Campus, em parceria com Berlim, reunindo jovens críticos de língua portuguesa. Brasileiros, portugueses, africanos. Fui lá conversar com a garotada. Antes, haviam ido caras do The Hollywood Reporter, Variety, o próprio Charles Tesson, que presidia o júri, que já espinafrei. Cada um causa do seu jeito. Eu fui lá não só para falar, mas para ouvir, também. Já disse que, aos 70 anos, tenho muito mais dúvidas, muito menos certezas que aos 20. Acho que deve ser isso amadurecer. Reconhecer os próprios limites. Não sou desonesto a ponto de querer forçar o paradigma – como fez a concorrência, ao arranjar quem dissesse que O Pequeno Segredo é o pior filme brasileiro de todos os tempos, quando não é, e isso não me compromete nem um pouco com ele, o filme. Mas sei que causo, mesmo não querendo, ao fazer dialogarem, no meu imaginário, Béla Tarr, O Cavalo de Turim, o maior filme do ano, e Batman versus Superman, de Zack Snyder, que entra na minha lista de dez mais nem que seja a porrete, como diria Augusto Matraga. Tergiverso. O que quero dizer é que não preciso rezar na cartilha do Márcio para reconhecer a importância do prêmio que a Paris e ele estão recebendo. Márcio me disse que um exibidor da Colômbia também está sendo premiado. É o cara que enfrenta Cinépolis, Cinemaerk e está colocando o cinema da Colômbia no mapa – no país e fora. A roda do cinema precisa andar. Pois que ande, mas nem por isso vou deixar de cobrar de Márcio um outro olhar, e um comprometimento com o cinema de autor, por que não? É um nicho, e fiel. Fábio Porchat estoura com Meu Passado e faz quase nada com Porta dos Fundos, o filme, que, aliás, é horrível. Júlio Bressane, ele, mantém a regularidade. Nas sua faixa, vai devagar, e sempre. E essa é a complexidade do mercado que é preciso identificar. Reconhecer. E respeitar.