Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O Diabo feito Marlene

Cultura

Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 12h12

Já disse aqui, no outro dia, que havia comprado o DVD de ‘O Diabo Feito Mulher’ (Rancho Notorious), western de Fritz Lang com Marlene Dietrich. Encontrei numa loja ali na rua lateral do Teatro Municipal. Paguei R$ 9,90 e no sábado, quando passei por lá, o preço havia baixado – agora, é R$ 7,90. Revi o filme é muito legal. É verdade que sou suspeito, porque adoro Lang, adoro westerns e adoro esses bangue-bangues em que as mulheres pegam em armas sem, precisar usar coturnos. Entendem o que quero dizer, não? Outro exemplar maravilhoso – ‘Johnny Guitar’, de Nicholas Ray, com Joan Crawford, que é ainda melhor – também foi produzido na Republic, como ‘Rancho Notorious’. Lang tinha a maior admiração por Marlene e um grande respeito por ela, que foi uma grande batalhadora antinazista. Mas o diretor confessou a Peter Bogdanovich – que o entrevistou no livro ‘Fritz Lang in America’ – qwue a parceria dos dois virou o inferno astral de sua carreira. Lang escreveu ‘Rancho Notorious’ para Marlene, mas cometeu um erro fatal – ao resumir o próprio filme, disse que era a história de uma mulher, não muito jovem, mas ainda sedutora e um pistoleiro que também está envelhecendo. Pronto – Marlene não gostou do ‘não muito jovem’ e tratou de infernizar ao máximo a vida de Lang. Segundo ele, todo dia, toda hora ela lhe dizia que Josef Von Sternberg – seu Pigmalião – faria o filme assim, ou assado. Lang pode não ter passado um bom momento, mas ‘Rancho Notorious’ é seu melhor western e uma síntese de sua carreira, marcada pela experiência expressionista, no começo de sua carreira, na Alemanha pré-nazista. Lang foi pioneiro em utilizar uma canção como motivo condutor de seu relato. A letra é maravilhosa. Diz mais ou menos o seguinte – ‘Escutem a roleta do destino/que roda com um som sussurrantegirando a mesma velha história de ódio, assassinato e vingança’. Outro trecho diz que a vingança é um fruto amargo, que pende da mesma árvore que a morte. E conclui – ‘O homem que vive pelo código do ódio não tem mais pelo que viver após a vingança’. Isso é a própria súmula do cinema de Fritz Lang. Grande Lang – Bogdanovich escreveu seu livro para quebrar uma escrita. Embora a obra ‘hollywoodiana’ de Lang seja extensa, os críticos sempre a negligenciaram, preferindo os filmes da primeira fase expressionista (alemã), que estabeleceram a reputação do mestre. Tudo bem que ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, com o genial Peter Lorre, seja a obra-prima de Lang, mas a obra norte-americana é cheia de grandes filmes. Meus favoritos são dois filmes de época (e de gênero) – ‘Rancho Notorious’ e ‘Moonfleet’, uma aventura sombria de piratas que, no Brasil, se chamou ‘O Tesouro do Barba rubra’. Stewart Granger, George Sanders e Viveca Lindfors formam o elenco. Que filme!