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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2007 | 17h49

‘Cahiers du Cinéma’, na fase de capa amarela (anos 50-60), implicava com o Robert Wise e, ao contrário do que sugeria o nome dele, dizia que seu cinema não era ‘sábio/esperto’ (wise). Não era só ‘Cahiers’. Aqui mesmo, no ‘Estadão’, Rubem Biáfora caía matando no ‘sub-expressionismo diluído do diretor’ (definição dele), chamando Wise de fricoteiro e acrescentando a este insulto outro ainda maior – Biáfora dizia que ele montava seus filmes como um açougueiro! Mas Wise foi um diretor importante, a quem se devem filmes como ‘Punhos de Campeão’ (este tenho de admitir que mais famoso do que bom) e também ‘Um Homem e Dez Destinos’, ‘Quero Viver’ e ‘Homens em Fúria’, os três com excelente trilha de jazz, e mais ‘West Side Story’ (Amor, Sublime Amor), que co-dirigiu com Jerome Robbins e foi um marco do musical. Wise, que morreu em 2005, foi um devoto da ficção científica, tendo realizado algumas para provar sua tese de que ela oferece, mais do que qualquer outro gênero, a possibilidade de refletir/advertir sobre as loucuras do mundo em que vivemos. Imagino que este post possa ser lido, em Portugal, pelo ex-diretor de programação da rede Telecine, Sergio Leeman, que escreveu um livro muito bacana (em inglês) sobre Robert Wise. Adoraria que o Sérgio me contestasse, falando de sua admiração pela versatilidade do diretor, que eu sei que alguns de vocês compartilham (outro dia alguém andou usando os comentários para elogiar acho que ‘Executive Suite’/Um Homem e Dez Destinos. Mas, enfim, vou chegar agora ao ponto. Mesmo não sendo o maior entusiasta de Robert Wise, gosto de alguns filmes dele e um dos melhores sempre me pareceu ‘O Dia em Que a Terra Parou’ (The Day the Earth Stood Still), no começo dos anos 50, sobre aquele robô (de Klaatu) que desce na Terra para pressionar os humanos a acabarem com a corrida armamentista (e a bomba atômica…).Foi, acho, o primeiro filme a mostrar um alienígena do bem, que não veio à Terra para destruir, mais de 30 anos antes do ‘E.T.’ de Spielberg. Vocês devem se lembrar do elenco – Michael Rennie, Patricia Neal, Sam Jaffe, Hugh Marlowe. Pois bem – e não é que Hollywood (a Fox) está para começar (em dezembro) o remake do clássico de Wise? Keanu Reeves e Jennifer Connelly farão os papéis principais e o diretor será Scott Derrickson. A tendência é dizer que vão piorar o filme, claro, mas confesso que vou torcer pelo Derrickson. Posso ser o único no mundo, mas acho bem interessante o que ele fez em ‘O Exorcismo de Emily Rose’, subvertendo desde o interior duas tendências do cinemão, o filme de exorcismo e o de tribunal. Como diria Derrida, ele desconstruía as duas linguagens para chegar ao essencial, e a essência, no caso, era a dúvida, além das certezas de qualquer religião.