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Cultura » O dia de glória (deles) chegou

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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2006 | 12h41

Estava em Londres, na sexta, zapeando na TV, quando passei por um canal francês e vi um cara conhecido. Era Rachid Bouchareb e o programa debatia o filme dele, Indigènes, que passa hoje na Mostra (19h30 na Reserva Cultural 2). Aqui se chama Dias de Glória. Bouchareb é um diretor francês de origem marroquina. Fez um filme de guerra que o espectador brasileiro talvez tenha dificuldade para avaliar corretamente. Em Cannes,. o júri presidido por Wong Kar-wai atribuiu a Dias de Glória o prêmio (merecido) de interpretação masculina, que foi conjunto, dividido entre todos os atores do filme. A dificuldade é a seguinte. Na 2ª Guerra, norte-africanos das colônias que a França tinha na África (Marrocos, Tunísia, Argélia), foram integrados ao Exército francês como bucha de canhão. Nenhum deles tinha colocado os pés na Europa, eram considerados cidadãos de segunda categoria, mas deram a vida pela pátria. O que Bouchareb faz agora, com base em histórias da família dele e comuns às dos atores Jamel Debbouze (um ídolo na França), Samy Naceri, Roschdy Zem e Samy Bouajila, é resgatar a identidade desses excluídos. Pode ser que algum espectador, aqui, considere Dias de Glória um filme de guerra como os outros, mas não é. Na França, causou polêmica e também comoção. Há quem ache que Bouchareb arreglou, que deveria ter sido mais duro na crítica, mais radical. Mas uma coisa ele conseguiu. Cobrou uma dívida histórica. Há, na Marseilleuse, o hino nacional da França, uma frase que diz – “Le jour de gloire est arrivé”, O dia de glória chegou. A coisa mais bonita que vi no tal programa é que a apresentadora, que nem sei quem é, encerrou a transmissão dizendo ‘Leur jour de gloire est arrivé”, O dia de glória deles, daqueles soldados. Havia veteranos e jovens, seus familiares, chorando na platéia. Piegas, talvez, mas eram histórias de vida, ali. Fiz a minha viagem pessoal, como sempre faço. Respeito muito a trilogia do George Stevens sobre a vida americana, formada por Um Lugar ao Sol, Os Brutos Também Amam e Assim Caminha a Humanidade, todos nos anos 50. O último, Giant, é um filme que eu acho que resolve com genialidade os problemas de tempo e espaço na narração cinematográfica clássica. Tem um episódio que me toca. Elizabeth Taylor, no filme, é a mulher do Leste que chega no Texas e se choca com o machismo e racismo daquela sociedade autoritária. Querendo mudar o mundo, ela inicia uma reforma na fazenda do Rock Hudson, um espaço mítico do cinema chamado Reata. E ela toma sob sua proteção aquele menininho que, quando jovem, vira o Sal Mineo. Chega a 2ª Guerra e o chicano, que não sabe o que é igualdade em casa, vai lutar contra o racismo na Europa. E morre. Volta só aquele ataúde, coberto pela bandeira americana. Confesso que sou um bobo, um sentimental, mas aquela cena me dói tanto que eu choro, cada vez que vejo. Stevens filma com o mesmo rigor do funeral de Stonewall (Elisha Cook Jr.), morto pelo Wilson (Jack Palance) em Os Brutos Também Amam. É a mesma coisa, aqui, talvez um pouco menos bem filmada, mas o que há de autêntico na expressão dos atores, que estão falando deles, de seus pais e avós, é uma coisa muito forte. Acho que o Kar-wai e seus colegas jurados sentiram isso, senão não teriam premiado o elenco masculino de Dias de Glória (como premiaram, conjuntamente, o feminino de Volver, de Pedro Almodóvar).