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Luiz Carlos Merten

13 Junho 2008 | 13h03

Em Paris, depois de Cannes, ficamos no mesmo hotel – o Argonautes, na Rue Huchette, pertinho de Notre Dame -, Elaine Guerini, Mariane Morisawa, Orlando Margarido e eu. Entre uma conversa e outra, Mariane revelou que seu nome é uma homenagem de seu pai, cinéfilo de carteirinha e godarmaníaco devoto, à personagem de Anna Karina em ‘Pierrot le Fou’. Só que ela se chama Marianne e a ‘nossa’ Mariane ficou com um N só. Muito interessante. Isso me lembra meu pai, de ascendência alemã – nasceu em Santa Cruz, no interior do Rio Grande do Sul -, que também chamou minha irmã de Marlene, em homenagem à Dietrich. Não tenho muita lembrança de meu pai. Ele morreu quando eu criança. Já tinha uns 9 ou 10 anos, mas ele já vinha doente há muito tempo e não tenho registro de conversas nas quais ele pudesse me passar seu amor pelo cinema (pela Dietrich, que fosse). Fechado o parêntese ‘confessional’, volto a ‘Pierrot le Fou’. O filme de Godard, que no Brasil recebeu o estapafúrdio título de ‘O Demônio das Onze Horas’, é o cartaz de amanhã da Sessão Cinéfila do Espaço Unibanco. Passa às 12 horas (meio-dia) na sala 1 do complexo da Rua Augusta, com ingresso a preço único de R$ 5. Andei revendo ‘Pierrot le Fou’, com outros filmes de Godard, quando o Grupo Estação repôs todos aqueles clássicos nos cinemas. É interessante falar em ‘clássicos’, a partir de Godard. A gente diz que os filmes são clássicos porque são obras dele que fazem parte da história do cinema, mas Godard sempre quis ser tão revolucionário – da linguagem e, depois, da própria política – que a classificação fica estranha, embora ele também tivesse seu pé no classicismo. Quero dizer que, na revisão, ‘Pierrot’ – o nome do personagem de Jean-Paul Belmondo é Ferdinand – não me impressionou tanto. Gostei mais de outros filmes de Godard que até me pareciam, anteriormente, menos interessantes. “Pierrot’ me pareceu um filme de gênero – Godard fazendo o gênero Godard, e colocando na tela tudo o que a gente poderia esperar (e encontra…) de um filme dele com Belmondo. Quero ver se revejo amanhã ‘O Demônio das Onze Horas’. Acho legal o que escreve sobre o filme nosso querido Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema. Ele diz que é uma homenagem aos indolentes, por meio de um ‘tour de France’ violento e picaresco. Mesmo não tendo (re)gostado muito, o começo é muito legal. Numa das primeiras cenas, Samuel Fuller aparece ao lado de Ferdinand para dizer que o cinema é só um gesto feito de amor, ódio, ação, violência e morte. Fuller fala do cinema, em geral, mas parece estar falando do dele e deste filme de Godard, em particular. Pois ‘O Demônio das Onze Horas’ mostra personagens que, decididos a romper com tudo, se deixam guiar pela emoção. É, ou deveria ser, um filme alegre e solto, mas de alguma forma me pareceu que Godard não estava sendo sincero (nem com a gente nem com ele mesmo). Ele se repetia, como Altman, ao transformar a estética de ‘Nashville’ numa fórmula reutilizada ad nauseam. Um soltava a câmera entre vários personagens. O outro, entre poucos, mas sempre recorrendo a citações e referências. Quero rever, prometo.