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Luiz Carlos Merten

31 Agosto 2009 | 15h39

Resolvi abrir agora o site da 2001Video para ver as novidades de lançamentos de DVD e topei com ‘Crepúsculo das Águias’, Blue Max, de John Guillermin, de 1966. Jean Tulard é um dos raros que levam esse diretor inglês em consideração. Ele observa, o que me parece verdadeiro, que Guillermin vale mais do que sua reputação. E Tulard acrescenta que o diretor se sente muito à vontade com o cinema espetacular, que não é, como se sabe, um gênero fácil. E o crítico cita, no Dicionário de Cinema, justamente ‘The Blue Max’, que conheceu um êxito estrondoso. Os aviadores de 1917 vistos pelo ângulo alemão. ‘The Blue Max’, o título refere-se à mais alta condecoração para pilotos de guerra do Exército alemão. No filme, George Peppard vem de baixo, da Infantaria. Pobre de nascimento, ele consegue integrar a elite dos ares da Alemanha na 1ª Guerra, mas não é aceito. A guerra de classes, segundo Guillermin. Ou eu me engano muito ou o filme começa nas trincheiras, com o herói dando mostras de coragem, mas com o fé enfiado no barro. E ele olha para cima e vê aqueles aviões evoluindo nos ares, feito um balé. É o reverso de outra cena que Guillermin habia criado, pouco antes, em ‘Rapture’, Ultraje à Inocência, sobre garotinha, Patricia Gozzi, apaixonada por homem em fuga (Dean Stockwell). Patricia é sonhadora. Numa cena, ela olha os pássaros, que voam, mas assim como capta seu olhar para cima , a câmera de Guillermin a filma num plongê violento – vista do alto, a garota não apenas parece vulnerável como totalmente devassada. ‘Ultraje à Inocência’ parecia reciclar filmes melhores, como ‘Marcados pelo Destino’ (Tiger Bay), de J. Lee Thompson, em que Hayley Mills tenta proteger do inspetor John Mills (seu pai, na vida) o fugitivo Horst Buccholz. Tem até algo de ‘Sempre aos Domingos’ (Les Dimanches de Ville d’Avray), de Serge Bouguignon, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro e, ou eu me engano muito, ou já era com Patricia Gozzi. De volta a “Crepúsculo das Águias’, o filme tem espetaculares cenas aéreas, uma trilha maravilhosa de Jerry Goldsmith e as cenas de sexo entre George Peppard e Ursula Andress possuem, como se diz, alta voltagem erótica. Ursula estava no auge, ainda, três anos depois de sair do mar, naquele biquíni – e com aquela adaga na cintura – em ‘O Satânico Doutor No’, no qual foi a primeira bondgirl. Peppard era uma sólida representação do masculino. Difícil enxcontrar herói mais viril – Com Audrey hepburn em ‘Bonequibnha de Luxo’; com Elizabeth Ashley em ‘Os Insaciáveis’; e com Carroll Baker em ‘A Conquista do Oeste’. Não sei o que vocês pensam dessas minhas viagens, mas eu adoro exercitar a lembrança, falando de filmes antigos, resgatando coisas muitas vezes esquecidas (até por mim). Vocês sabem que os livros de Edgar Rice Burroughs foram leituras fundamentais na minha infância e adolescência. Guillermin fez ‘A Maior Aventura de Tarzan’ e ‘Tarzan Vai à Índia, a primeira com Gordon Scott e a segunda com Jock Mahoney, que foi, tenho de reconhecder, tadinho, um homem-macaco bem ridículo. Na ‘Maior Aventura’ – e o filme não densonrava seu título –, o vilão era um certo Sean Connery e a mocinha, Scilla Gabel, era sósia de Sophia Loren. Logo depois de ‘Crepúsculo das Águias’, Guillermin emendou outro filme com George Peppard, ‘Uma Nova Cara no Inferno’, P.J., em que o ator fazia um detetive particular (e a produção se inscrevia na onda de revival do gênero, na segunda metade dos anos 60). Tenho uma lembrança muito forte deste filme. Peppard era contratado para proteger a amante (Gayle Hunnicutt) de um chefão. Na época, a ‘crítica’ achou o filme muito violento e era mesmo, com uma cena de morte no metrô de levantar a gente da poltrona. Mas eu fico agora um tanto confuso. Não sei mais se a cena no clube gay, em que Peppard toma porrada de um cara que usa um anel que causa o maior estrago na cara dele, é de ‘Uma Nova Cara’ – tenho quase certeza que sim – ou de uma terceira parceria com o diretor, ‘Não Importa que Morram’, em que ele contracenava com Orson Welles, na pele de um milionário fascista (e o filme tinha uma aterradora cena de morte na água). Guillermin fez ‘O Inferno na Torre’, obra emblemática da tendência chamada de disaster movie (com Paul Newman e Steve McQueen), mas depois de ‘King Kong’, a versão de 1976, desisti dele, embora a cena de Jessica Lange tendo orgasmo na palma da mão do gorilão, quando ele a seca com seu sopro, seja forte. Ah, sim, estava me esquecendo de ‘A Morte do Nilo’, com Peter Ustinov na pele de Hercules Poirot. Adoro Agatha Christie, mas acho que em geral as adaptações de livros delas não são muito boas. Poirot trabalha mais com as células cinzentas, ele quase não age. Lembro-me que Paulo Francis reclamava de ‘Death on the Nile’, dizendo que cada um dos numerosos astros e estrelas que integram o elenco tem direito à sua grande cena – e isso era um saco – , mas até ele reconhecia que era difícil não se divertir com Bette Davis como megera, Angela Lansbury como excêntrica e Mia Farrow como assassina tresloucada.