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Cultura » O colapso do humano

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Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2011 | 20h19

Joseph Losey fez alguns filmes baseados em livros e peças, mas não foi um ‘adaptador’ como Luchino Visconti, por exemplo. Alguns de seus melhores filmes são roteiros originais, mas até neles se percebe alguma coisa das influências estéticas, literárias ou não, sobre seu estilo. ‘Monsieur Klein’ talvez seja o filme mais borgiano não adaptado de Jorge Luis Borges, com todos aqueles labirintos (da mente).  Impossivel dizer quanto Losey conhecia de literatura argentino, mas se ‘Monsieur Klein’ parece Borges, ‘Cerimônia Secreta’ baseia-se em outro autor argentino, Marco Denevi. Já disse que é um dos meus filmes favoritos de Losey. Acaba de ser lançado em DVD (pela Cult). Foi o segundo filme do diretor com Elizabeth Taylor, após ‘O Homem Que Veio de Longe’, Boom!, adaptado de Tennessee Williams. Ambos os filmes estão muito mais conectados do que parecem. É como se Losey retomasse os personagens do ‘Homem’ – a multimilionária sra. Goforth, o Anjo da Morte e a secretária – e os encerrasse na atmosfera densa de desafios sexuais e grilhões psicológicos de ‘Estranho Acidente’, que considero superior a ‘O Criado’ e até ‘O Mensageiro do Amor’, duas outras associações do cineasta com Harold Pinter. O paradoxo é que Taylor, reencarnando a sra. Goforth, faz agora Leonora. Como Eva, Jeanne Moreau, é uma prostituta e a cena de abertura nos diz tudo o que precisamos saber sobre ela. Em seu quarto miserável, Leonora guarda a foto da filha que morreu e, quando o cliente sai, ela faz o gesto de borrar o batom, ou de tirá-lo dos lábios. Leonora vive presa ao passado e sonha com a purificação. Liga-se a Cenci, Mia Farrow, que lhe propõe um  jogo. Leonora será a mãe morta de Cenci. Se, como prostituta, ela vendia o corpo, agora continuará alienada de si mesma e, num momento decisivo,  as relações que vão se estabelecer são as mesmas de ‘O Criado’,. Ou seja, de patrão e empregado, ou patroa (Cenci) e empregada (a p…).  Revi ‘Cerimônia Secreta’ e, embora a cópia não faça integralmente justiça à deslumbrante fotografia de Gerry Fisher (nem ao desenho de produção de Richard MacDonald), permite mesmo assim uma iniciação ao esplendor da mise-en-scène de Losey, que se constrói num elaborado jogo de portas que vão se fechando sobre as personagens, especialmente Leonora, num mecanismo que se torna cada vez mais sufocante, até a parábola dos dois ratinhos, recitada no desfecho. Dois ratos caem certa noite num pote de leite, um morre afogado e o outro se debate tanto, no afã de sobreviver, que pela manhã está sentado sobre um monte de manteiga. Leonora sobrevive aos jogos perversos de Cenci, à sua cerimônia secreta, mas essa sobrevivência não vai significar sua liberação. O castelo que ela sonhava construir, com Cenci, é destruído, mas isso já sabemos que vai ocorrer, logo que o personagem de Robert Mitchum – o falso pai? – entra em cena. Em sua primeira imagem, ele é enquadrado com o garoto que faz um castelo de areia. Nada é deixado ao azar no filme. Leonora, ao destruir a falsa gravidez de Cenci, vai fazer com que nasça outra mulher, mas a que surge  lança ‘Cerimônia Secreta’ no conflito de classes que sempre interessava ao autor estabelecer (para tentar destruir?). Losey foi uma raridade para um autor norte-americano. Seu marxismo nunca foi panfletário nem ferramenta para tomar posição perante o conflito político de nossos dias, como escreveu Hélio Nascimento, o grande crítico gaúcho. O marxismo de Losey tinha raízes profundasa no humanismo do filósofo, que só é atacado por quem nunca o leu, de novo estou citando, de memória, meu amigo Hélio. Marx forneceu a Losey uma das colunas mestras de seu cinema, a outra veio de Brecht, com quem o diretor colaborou (no teatro). Não existe nada mais difícil do que o ‘estranhamento’ (vá lá que seja, o distanciamento) brechtiano, num meio avassalador como o cinema, mas foi isso que Losey fez. ‘Cerimônia Secreta’ foi feito em 1968, o ano que nunca acaba. Há 43 anos! O mundo mudou muito, desde então, mas não evoluiu para a sociedade mais humana e igualitária com que sonhávamos, alguns pelo menos, na época. O que temos hoje é muito mais a consolidação da rapinagem das tias, Pamela Brown e Peggy Ashcroft, que se apropriam de tudo o que podem, enquanto simulam afeto (que não tem) por Cenci. Neste quadro, o tema loseyniano de ‘Cerimônia Secreta’ é a impossibilidade de existência do humano, o seu colapso. Que ‘2012’, que nada. O verdadeiro apocalipse está em ‘Cerimônia Secreta’, no requinte cenográfico e na beleza das imagens flamboyants que Losey (e Fisher) logram construir. E o elenco! Taylor construíra outra persona, após ‘Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?’, que lhe deu o segundo Oscar (em 1966). Mia Farrow, falando com voz infantil – até reassumir sua dureza -, foi umas das melhores (a melhor?) atriz de sua geração. ‘Cerimônia Secreta’ e ‘O Bebê de Rosemary’, de Roman Polanski, lhe deram o prêmio de melhor atriz no Festival Internacional do Filme, no Rio. E ela ainda fez, na época, ‘John e Mary’, de Peter Yates, antes de se converter em estrela única de Woody Allen. Filmando praticamente só com ele, Mia cavou a própria sepultura, quando o casamento terminou, da forma inglória que todo mundo sabe. Mas ela era boa, basta (re)ver o deslumbrante filme de Losey.

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