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Cultura » O cinema romeno e sua urgencia social

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Luiz Carlos Merten

13 Fevereiro 2010 | 15h21

BERLIM – Estou postando da rua, sem acentos. Quem quiser saber das novidades, vai ter paciencia. Foi muito interessante. Tive ontem a impressao, depois de assistir ao filme de Tomas Vinterberg, que a Berlinale havia comecado para valer. Mas é difícil tentar emitir juízos definitivos num grande festival porque a cada programa as coisas podem mudar. Hoje pela manha, por exemplo, o filme romeno If I Want to Whistle, I Whistle, de Florin Serban, trouxe outra história de família desestruturada, sobre outros dois irmaos. Um dos garotos, o mais velho, está preso, prestes a ser solto, quando recebe a visita do cacula, que lhe anuncia que a mae, que os abandonara, voltou da Itália e quer levá-lo. A mae já havia feito isso com o mais velho no passado. Nao fica clara sua profissao na Itália. Ela diz que trabalha num hotel, o filho diz que ela se prostitui e só se lembra da família quando está sozinha, abandonada pelo gigolo do momento. O garoto preso é um jovem raging bull. Carrega uma revolta muito grande, está prestes a explodir, mas se contém porque vai ser solto em seguida. A pressao da mae, combinada com a dos colegas detentos, o faz explodir. Ele se descontrola, cria uma situacao com reféns. De novo o cinema romeno aposta na urgencia social, sem deixar de refletir sobre temas profundos do homem e da família. Serban usou atores profissionais – o presidiário e sua refém, mesmo assim ele, George, Pistereanu, é estreante; a mae; o diretor da prisao -, mas o restante do elenco é formado por jovens detentos, ou ex-detentos, com quem o cineasta fez uma oficina de interpretacao. E o filme nao se propoe a ser conclusivo sobre nada. Hollywood, talvez moraliasticamente, tivesse buscado um fecho para a história. Serban deixa tudo aberto. A relacao com a mae, a prisao, num certo sentido só a ligacao com a menina parece encaminhada – para o que? – no desfecho. Gostei demais, mas é impressionante como sao esses festivais. Havia pouca gente na coletiva, ao contrário da de Polanski – do filme dele -, ontem, e da de Martin Scorsese, hoje. Já falo sobre Shutter Island, que no Brasil vai se chamar A Ilha do Medo. Voces sabem que nao gosto muito da parceria Scorsese/DiCaprio, mas este filme ainda é pior. Decepcionante. Daqui a pouco encaro A Ilha do Medo.