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O cinema mudou e a lista da Empire dá conta disso

Luiz Carlos Merten

06 Agosto 2017 | 09h12

Eu, às vezes, tenho vontade de cortar os pulsos. Sou aquele cara que ainda acha que Rocco e Seus Irmãos é o filme de sua vida e que ama Hiroshima Meu Amor, Rastros de Ódio e A Primeira Vitória. Estou totalmente defasado. A revista Empire fez uma enquete com seus leitores. O resultado está no número nas bancas. Os melhores filmes de todos os tempos. Deu Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão, o 1, na cabeça. Depois, pela ordem, até o dez – Star Wars Episódio 5/O Império Contra-Ataca; Batman/O Cavaleiro das Trevas; Um Sonho de Liberdade; Pulp Fiction/Tempo de Violência; Os Bons Companheiros; Os Caçadores da Arca Perdida; Tubarão; Star Wars Episódio 4/Uma Nova Esperança; e O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel. Gosto de todos, até do Martin Scorsese, seu último bom filme, mas não creio que sejam os melhores de todos os tempos. Nem o Coppola. A lista prossegue com muitos Christopher Nolan (todos), Alfred Hitchcock (vários), Stanley Kubrick (idem), Steven Spielberg (alguns). Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles, aparece em 46.º lugar, entre Drive (de Nicolas Winding Refn) e Interstellar (de Nolan). Empire é uma revista de fãs, não propriamente de cinéfilos. Põe muito (só?) blockbuster na capa. Imagino que, até por isso, seu público seja predominantemente jovem. Os jovens não têm memória? O gosto realmente mudou? Empire pede a diretores que escrevam sobre seu filme preferido. Edgar Wright, de Baby Driver, colocou Arizona Nunca Mais, dos irmãos Coen, na cabeça. Scott Derrickson, Ikuru/Viver, de Akira Kurosawa. Empire não tem compromisso com o cinema mundial. É uma revista norte-americana que privilegia o cinemão, embora tenha uma sessão de Blu-ray e uma Classic Scene que dá conta dos (e homenageia os) grandes autores. Três Homens em Conflito/Il Buono il Brutto il Cattivo, de Sergio Lerone, é o primeiro filme ‘estrangeiro’ da lista, em 27.º lugar. Leone aparece de novo em 52.º, com Era Uma Vez no Oeste. Nenhum outro western – nenhum John Ford! Montes de ficção científica. Kurosawa, com Os Sete Samurais, aparece em 73.º. E Amélie Poulain, em 98.º. Nenhum (Ingmar) Bergman, nenhum neo-realista nem nova onda, mas Luc Besson, com Leon/O Profissional, é 84.º. Justamente Besson. Foi o cara que, no ano 2000, outorgou a Palma de Ouro a Dançando no Escuro, naquele ano em que Cannes abrigou um grande seminário internacional para discutir as novas tecnologias. Conversei com Besson sobre isso, no outro dia. Ao premiar o Lars Von trier, ele e seu júri imaginavam o alcance da revolução digital desses 17 anos? Besson faz filmes cheios de efeitos. Seus detratores dirão – defeitos. Pessoalmente, ele diz que se atrapalha com todas as novas ferramentas, mas tem um filho – garoto – que lhe dá as dicas. ‘Pai, faz assim.’ Besson escreve suas sinopses a mão, com headphone, ouvindo música. Ele me disse seu filme favorito recente, que repassei a vocês. Miss Sloane. Fiquei pensando agora – qual será o filme favorito do filho de Besson? Talvez esteja na lista da Empire.