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Cultura » O cinema imperfeito de Iñárritu

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Luiz Carlos Merten

28 Setembro 2006 | 11h40

Passei ontem a minha meia-hora com Alejandro González Iñárritu no 36º andar do Hotel Meridien, com aquela vista espetacular de Copacabana. Não deu nem para chegar perto da janela. Ele estava cansado, enterrou o chapéu na cabeça, meio que cobrindo o rosto. Não quis ser fotografado, mas foi afável. Ouviu com atenção minhas restrições a Babel e, quando disse que tinha visto o filme do Ripstein na Première Latina, inverteu a entrevista e começou a me indagar sobre Carnaval de Sodoma. Iñárritu é muito ligado na família, na mulher e nos filhos, que moram em Los Angeles, nos pais, que moram no México. Disse que o pai é um contador de histórias maravilhoso e foi quem despertou seu desejo de virar diretor, para também contar histórias. As que o atraem são as de pais e filhos, em Babel como em Amores Brutos e 21 Gramas, que passa hoje na TV paga. Os três filmes não surgiram como partes de uma trilogia planejada, mas assim foram sendo construídos. Iñárritu não tem falsa modéstia – diz que é bom na conceituação de um filme. Ele tem de trabalhar por conceito. O de Babel era discutir o mundo globalizado, em escala planetária. Ele achou que fazia um filme sobre o que nos separa no mundo globalizado. Descobriu que Babel fala do que nos une. O roteirista Guillermo Arriaga, atendendo ao que Iñárritu pedia, forneceu o ponto de partida – o tiro que esses garotos africanos disparam e atinge a turista americana no ônibus que passa no deserto. O caso tem desdobramentos em outros dois continentes, a América e a Ásia. O elo fraco, o que mais exibe a fragilidade (ou artifício) da estrutura dramática de Babel, é o japonês. O diretor não concordou comigo. Disse que precisava do mistério e do ‘perfume’ da história japonesa para dar a Babel a dimensão planetária que queria. O que Iñárritu me disse de mais bonito é que seu cinema é um testemunho de suas experiências. Ele gosta deles pelas imperfeições, como também gosta das mulheres por suas imperfeições. As muito bonitas são bonecas de carne. Mulheres, como filmes, têm de ter alma. Na arte e na vida, seu interesse é pelo humano. Como colocar na tela a humanidade de um mundo desumano? É a questão essencial de seu cinema. Babel é impactante, mas depois de conversar com Iñárritu você até acha que é pecado ficar falando de defeitos no filme de uma cara tão bacana.