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Cultura » O cinema do século 21

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Luiz Carlos Merten

11 Julho 2007 | 16h02

No post anterior, sobre Saneamento Básico, terminei expressando o desagrado de Jorge Furtado pela declaração de Peter Greenaway, no Caderno 2 de terça-feira, proclamando a morte do cinema porque ele não tem interatividade e não consegue se comunicar mais com a geração internet. Jorge citou o Umberto Eco, dizendo que o caminho era outro. Passava pela transformação da cultura clássica em pop. O que me lembra uma discussão muito interessante que Antônio Gonçalves Filho iniciou no Caderno 2, acho que há uns três anos, quando O Retorno do Rei concorria ao Oscar (e ganhou os principais prêmios da Academia de Hollywood). AGF via na saga de O Senhor dos Anéis o perfil do que deveria (ou deverá) ser o cinema do século 21: um espetáculo monumental de resgate de culturas ancestrais para as massas. Assim como o compositor alemão Richard Wagner, a partir de mitos nórdicos, construiu sua “obra de arte total”, concebendo a tetralogia operística O Anel dos Nibelungos no século 19, Peter Jackson recorreu a Tolkien e ao seu embasamento na cultura celta para realizar a milionária trilogia exatamente sobre o mesmo tema, o do herói mítico capaz de preservar um poderoso anel e impedir que ele caia em mãos erradas. O ponto de partida é o mesmo, a discussão da saga e do mito, mas o desenvolvimento segue rumos distintos e chega a desfechos também distintos. Sigfried, em Wagner, enfrenta o destino trágico que o leva a destruir o Wotan, antecipando a barbárie da raça superior preconizada pelo nazismo. Em Jackson, o rei retorna, iniciando uma nova era, e Frodo também volta para sua casinha, o que aponta na direção de um desfecho mais ‘burguês’. Perdi a chance, pois não puxei o assunto O Senhor dos Anéis com Greenaway, quando ele desqualificou o cinema por ser narrativo de base literária. A idéia dele de que o cinema dialogue com as artes visuais é interessante, mas a interatividade e até a recusa de que o cinema seja narrativo… Não precisa ser narrativo no sentido hollywoodiano, da história acima de tudo, mas as associações – de imagens e sons, de imagens e imagens, de sons e sons – dificilmente deixam de ser ordenadas num discurso pela gente. É uma coisa que me intriga. Mário Peixoto, quando fez Limite, há 70 e tantos anos, fugiu como Diabo da cruz da linearidade da história, mas toda tentativa de compreensão da obra que eu conheço passa pelo enquadramento de Limite na camisa-de-força da história (e das múltiplas referências culturais que ela encerra). Sei que tem gente que nem pensa nisso, mas eu amo a trilogia do Jackson e acho muito legal essa idéia de democratização da cultura para as massas, que vai na contracorrente do elitismo de Greenaway, que não considera as massas importantes para seu projeto de cultura. O que isso tem a ver com Saneamento Básico? Nada. Ou melhor, tudo, mas vamos esperar até dia 20, pela estréia.

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