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O cinema antes da eleição

Luiz Carlos Merten

09 Março 2018 | 09h55

Wagner Moura não fala mais comigo. Escreveu para o jornal dizendo que eu havia deturpado suas palavras quando me disse que estava gostando de ir para a Colômbia para fazer Narcos, porque assim ficava um pouco distante do Brasil. Na época ele apoiava Marina Silva e parece que pegou mal, sei lá, como se estivesse desertando da luta. Ri muito quando o pessoal da agência Febre veio me dizer, cheio de dedos, na junkett de Trash – A Esperança vem do Lixo, que Wagner me cortara e não ia falar comigo, e o Selton Mello disse que ele, sim, falaria, e com prazer. Obrigado, Selton, por tua generosidade, além do talento. Nem por isso deixei de admirar Wagner como ator e estou torcendo para que dê supercerto em sua estreia como diretor de longa com Marighella – já fez um clipe antes – e até me pergunto se ele vai continuar me excluindo, porque um filme desses, no Brasil atual, não vai poder se dar ao luxo de prescindir de possíveis apoios. Li, na entrevista de Wagner no Globo, já faz um tempo, que ele ia tentar fazer o filme para estrear antes das eleições, para integrá-lo ao debate. Acrescentou, talvez não sejam exatamente suas palavras, que a esquerda não poderia ficar etenamente na defensiva e que tinha de partir para o ataque. Boa, garoto! Não pude deixar de pensar nisso quando entrevistei essa semana o Roberto Santucci, por Os Farofeitos, do qual gostei bastante. Tanto o acusam de fazer um cinema televisivo que o Santucci e seu roterirista, o Paulo Cursino, radicalizaram. Quebraram a quarta parede – a cena à A Rosa Púrpura do Cairo, em que os personagens da tela falam com o elenco e os atores se viram para falar com o público -, e recriam, na cena da piscina, O Chamado, em que Danielle Winits, a perua da Zona Sul, está ótima. Santucci se admirou como muita gente veio lhe falar sobre Carrie, a Estranha. É curioso como o público faz suas releituras, não? Mas a questão é – Santucci já filmou O Candidato Honesto 2, que também vai lançar antes da eleição e dessa vez Temer, o sr. presidente, com mínúscula, viram?, aparece como vampiro. Santucci jura que o filme é anterior ao desfile da Sapucaí, onde o cara do Planalto já botou seus caninos de fora e o público aplaudia nas arquibancadas. Santucci faz cinema para as massas, para tentar manter girando a roda da indústria e eu gosto dessa definição, e o respeito por isso. E aí, vejam só, ontem, no Passageiro, ao ver o trailer do filme de Alexandre Avancini sobre o bispo Edir Macedo, Nada a Perder, pensei comigo… Ora, ora, ora! Longe de mim querer defender o bispo e sua igreja, mas estou aberto para que vou ver e esse é outro filme para massas, que com certeza vai repercutir no eleitorado. O diretor pode até dizer que não teve a intenção, mas as primeiras imagens mostram o bispo sofrendo acusações e processos da Igreja, de empresários da comunicação e de políticos no episódio da compra da Record. Mostra também o aparato gigantesco para prendê-lo e, depois, trancafiado atrás das grades, numa atitude de grande serenidade – lendo a Bíblia! -, como se fosse tudo um grande complô. Embora no Brasil atual 2+2 nem sempre sejam 4, fiquei pensando… A história de um ‘inocente’ preso… Santa ou maldita coincidência, depende do ponto de vista. E calo-me, porque tenho filme daqui a pouco.