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O Chacal e o Salmo

Luiz Carlos Merten

27 Julho 2007 | 09h05

Tenho muito o que fazer agora pela manhã, inclusive ir ao RoboCop para assistir, na cabine da Columbia, a Primo Basílio, de Daniel Filho, que já vi, mas numa cópia em que luz e som ainda não estavam finalizados. Gostei, mas esta é outra história. Quero acrescentar só mais um post sobre O Chacal porque acho que tem a ver com o que estamos vivendo aqui em são Paulo. Mais que o filme de Babenco, mais que a série de TV Carandiru – Outras Histórias, a peça Salmo 91, de Dib Carneiro Neto, em cartaz no Sesc Santana, provocou um debate que tem agitado o blog do meu colega Zanin (Luiz Zanin Oricchio) e será objeto de análise na edição de amanhã do Caderno 2. Já falei aqui. Dib está sendo acusado de fazer a apologia do crime, por dar voz, seguindo a trilha de Drauzio Varella e Hector Babenco, aos criminosos do Carandiru que foram chacinados. Tem aí uma corrente direitista que se vale do sofrimento de familiares de vítimas da violência para dizer que detento bom é detento morto e que, em vez de 111 mortos, o massacre deveria ter contabilizado muitos mais. Cento e 11 mil, talvez? Isso é coisa de nazista, que sonha com a eugenia e a possibilidade de ‘limpar’ o mundo, ou de reconstruí-lo segundo seu desejo. O que O Chacal tem a ver com isso? O filme de Littin conta uma história real ocorrida no Chile, nos anos 60. Um camponês, bêbado e a analfabeto, matou a mulher e seis filhos. A cena do crime é uma das mais terríveis que já vi na tela. É filmada de cima e o cara executa uma dança macabra matando uma a uma as crianças. O Chacal é preso e levado a julgamento, que se estende por vários anos. No processo, ele se alfabetiza, aprende a ler e escrever, vira outro homem, consciente do crime que praticou. Transformado num cidadão, recebe a sentença – condenação à morte. É executado. O excluído pelo sistema de latifúndio montado no Chile é incluído para morrer. Em 1969/70, este filme desencadeou um intenso debate no Chile. Eram os anos de Allende, da Unidade Popular. Littin virou um símbolo de engajamento, pela identificação que se faz do seu cinema com a Unidade Popular, até porque, em seguida, ele filmou Camarada Presidente, um diálogo de Allende com Régis Debray. Estou só falando de gente de esquerda. Já deve ter camarada pulando fora do post. Allende morreu nos escombros de La Moneda, 111 morreram no Carandiru. Quero ver essa canalha fascista depois de assistir a O Chacal de Nahueltoro, se forem. Num filme como Dançando no Escuro, Lars Von Trier quer provocar impacto filmando a execução de Bjork, acusada de crime, mas nós sabemos das circunstâncias em que tudo ocorreu (e ela é a vítima da história). Em Não Matarás, Kieslowski deixa claro que o autor do latrocínio cometeu um ato criminoso. Matou para roubar. Nem por isso a execução é menos brutal – o que importa não é mais ele, somos nós, os espectadores, o nosso sentimento ético diante do mundo. No filme de Littin, também. O cara se reconstrói como homem na cadeia. É morto. Dostoievski, em Recordações da Casa dos Mortos, entendeu melhor do que ninguém o universo carcerário, o exílio interno de homens presos. Nada é simples. Preso bom é preso morto, uma ova. Vejam Salmo 91. Vejam O Chacal de Nahueltoro.