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Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2010 | 13h11

Hoje, ninguém me segura. Já votei, postei, estou terminando meus textos do dia na redação do ‘Estado’ e, daqui a pouco, corro para o Shopping Pompéia, onde espero assistir, finalmente, a ‘Mistérios de Lisboa’. Depois de acrescentar, no outro dia, o post sobre ‘Um Dia na Vida’, dei-me conta de que Eduardo Coutinho, ao se reinventar mais uma vez, não deixa de estar retomando sua experiência no ‘Globo Repórter’, da Globo, no qual foi montador. Só queria transferir uma interrogação para vocês. Achei ‘Um Dia na Vida’ interessante, não diria genial, mas a pergunta que já me fiz, num desses períodos de convalescença, após uma cirurgia, quando não me restava outra coisa senão ler e ver TV, é a seguinte – a  TV aberta do País é ruim por ser um espelho no qual se reflete a sociedade ou a sociedade é do jeito que é por que tem essa TV que, democraticamente, a deseduca ou, pior ainda, legitima? Não resisto a uma reflexãozinha rápida. Ontem, havia combinado de me encontrar com a Lúcia e o Érico, minha filha e genro, no Shopping Eldorado, para almoçarmos. Não uso celular, vocês sabem, e isso me cria cada vez mais problemas.  Outro dia estava com uma coceira no ouvido e fui ao médico porque achei que podia ser por causa dos orelhões, que vivo usando (e eles andam cada vez mais podres). Ontem, Lúcia e Érico atrasaram, queria saber onde estavam e terminei tendo de sair do shopping porque os raros telefones públicos que encontrei lá dentro não funcionavam. Comprei um cartão, que o orelhão da rua engoliu, mas pelo menos pude chamar a cobrar, conseguindo falar com a Lúcia. A reflexãozinha, confesso que meio estapáfúrdia, é a seguinte. Ou melhor, são duas. Me lembro de que a imprensa toda deu grande destaque ao fato de que parecfem existir hoje mais celulares do que saneamento básico no Brasil. Mas é, como diria o Coronel Nascimento, a lógica perversa do ‘sistema’, não exaqtamente desse governo. A indústria automobilística vendeu e ainda vende a ideia de que o carro é mais importante que a casa. Da mesma forma, é mais importante ter celular do que água corrente, banheiro, até porque hoje em dia, sem a menor cerimônia, a gente entra no banheiro e tem sempre alguém falando ao telefone na casinha ao lado. Me abismo, não sei se rio ou se choro, quando a voz afina por causa do esforço, mas o cara não desiste de falar. Celular é tudo, gente. Quem não tem, como eu, arrisca-se a ficar por fora. Sempre ouvi falar que uma das maravilhasas do capitalismo, versus comunismo, era o respeito pelo individualismo. Em shoppings dos EUA, nas ruas da Europa (Berlim, Paris, Cannes etc), sempre encontro telefones públicos limpos e, principalmente, que funcionam. Aqui, a liberdade que me resta é a de escolher qual celular (não) quero comprar. Extrapolando um pouco, cresci lendo e ouvindo o mundo todo se preocupar com o sofrimento do pobre povo russo sob o comunismo. Sem liberdade, sem bens de consumo, coisa e tal. O povo russo nunca foi mais miserável nem sofrido quanto hoje. A visão que Sergei Loznitsa expõe em ‘Minha Felicidade’ tem algo de Dostoievski, como falava ontem com Marcus Mello, da ‘Teorema’, outro amante do filme, mas ‘Crime e Castigo’, ‘Recordações da Casa dos Mortos’ e ‘Os Irmãos Karamazov’ são refresco perto de ‘Minha Felicidade’. Mas quem está preocupado? F…-se os russos entregues agora aos criminosos que assumiram o poder na antiga União Soviética. Ouço até algum desses intelectuais venais, que tudo defendem (o ‘sistema’), dizer – ‘Mas aqueles russos sempre foram servos e sofreram. Sob os cavaleiros teutônicos, o czares, incluindo Stálin. Por que seria diferente agora?’

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