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Luiz Carlos Merten

04 Novembro 2008 | 16h37

Foi meu colega Zanin, Luiz Zanin Oricchio, quem cantou, numa reunião de pauta do ‘Caderno 2’, o que parece até óbvio – mas como ninguém fez a matéria até agora, se fizerem é cópia. Selton Mello e Matheus Nachtergaele, a dupla Chicó e Zé Grilo de ‘O Auto da Compadecida’, de Guel Arraes – uma das obras emblemáticas da Retomada –, estão estreando ao mesmo tempo na direção, amadrinhados pela mesma produtora, a guerreira Vânia Cattani. Ambos atores com facilidade de comunicação popular, optaram por fazer filmes autorais, viscerais, de um recorte até mesmo difícil. Parabéns! Havia ficado meio desconcertado com ‘A Festa da Maria Morta’, quando vi o filme de Matheus em Cannes, mas depois o revi em Gramado e no Festival do Rio e fui entrando naquele universo. Instalei-me. Virei o maior defensor da ‘Menina Morta’. Não creio que vá ocorrer a mesma coisa com ‘Feliz Natal’. Há tempos corria atrás do filme, que não vi em Paulínia nem no Rio nem na Mostra de São Paulo. Vi hoje e confesso que me decepcionei. Não sabia exatamente o que esperar, e o que encontrei foi um filme muito bem dirigido, aliás, bem dirigido demais. A mise-en-scène de Selton é elaboradíssima, produto de grande reflexão (ou assim me pareceu) e também de uma grande interação entre diretor e fotógrafo (o genial Lula Carvalho, que também fotografa a ‘Menina’). Mas a opção de construir o filme com a câmera rente aos personagens me cansou. Pior do que isso – os personagens me cansaram. Temos visto muitos filmes sobre família, ultimamente. Selton fez o dele sobre a família como fonte de tragédia (e opressão, e miséria moral e humana). Um filme radicalmente autoral, que não liga a mínima para o mercado. E daí? O que mais me desconcertou em ‘Feliz Natal’ foi o fato de o filme ser tão intenso, tão pretensioso – a pretensão não é, em si, um defeito – e ao mesmo tempo tudo isso se anular. Não vou dizer que ‘Feliz Natal’ seja banal, mas é previsível. Eu tinha certeza, lá pelas tantas, que a revelação da ‘verdade’ da relação entre os irmãos (Selton e Paulo Guarnieri) seria aquela. Quando o casal se senta, perto do fim, eu disse comigo – agora ela vai dizer que quer se separar. Durante todo o tempo, era possível antecipar o que ia ocorrer, porque a dramaturgia do filme, e a própria direção, não armam espaço para a surpresa. A lista de obviedades inclui a volta de Darlene Glória fazendo a Geni de ‘Toda Nudez Será Castigada’ 30 e tantos anos depois, em atuação premiada e tudo. Confesso que aquilo me deu um cansaço imenso. Longe de mim querer ser o carrasco do filme do Selton, já que tenho imensa admiração pelo cara. Mas o filme dele, por maiores virtudes de direção que tenha, me exauriu sem me acrescentar. ‘Feliz Natal’ coloca em xeque para mim o próprio conceito do cinema de autor no atual panorama do cinema no Papis (e no mundo). O filme pode ser duro, pode jogar toda a m… do mundo no ventilador, mas eu, pelo menos, quero – ave, Van Gogh – uma arte que me console da miséria humana em geral, e da minha, em particular. Se é para ser Natal em família, prefiro o de Arnaud Desplechin, ‘Um Conto de Natal’. Para arrematar, ainda tinha o nu da Graziela Moretto, que desencadeou aquela reação do Pedro Cardoso. Foi o que me afundou de vez – não a atriz e muito menos sua (bela) nudez, perfeitamente justificada, do ponto de vista dramático (acho). Mas, meu Deus, tudo bem que de perto ninguém é normal, mas é preciso ser tão doido?