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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2008 | 10h57

Estou de volta a São Paulo – ao jornal – e espero daqui a pouco conversar com o povo que cuida dos blogs para saber onde andam vocês, já que os comentários sumiram desde as novas diretrizes. Tive um dia corrido ontem em Paris – que chique, não? – antes de embarcar, no final da tarde, para Munique e, dali, para o Brasil. Não consegui ver o Ozu – ‘Crepuscule à Tokyo’ – porque era muito longo. Terminei vendo ‘Le Mirage de la Vie’ no ciclo em homenagem a Douglas Sirk, no Reflets Médicis. O filme passou no Brasil como ‘Imitação da Vida’, mas teve uma fase na TV, no SBT, em que foi reintitulado como ‘Odeio Minha Mãe’. Sei que tem gente que prefere ‘Tudo o Que o Céu Permite’ e ‘Palavras ao Vento’, mas ‘Imitação da Vida’, adaptado do romance de Fannie Hurst, é o meu Sirk preferido. E como era boa atriz a Susan Kohner! Falei aqui outro dia daquelas atrizes que surgiram em Hollywood por volta de 1960, quando se encerrava a era de ouro dos estúdios. Suzanne Pleshette, Diane Baker, poderia citar muitas outras que, na transição, não encontraram espaço na nova Hollywood. Susan Kohner foi uma delas. Ela é maravilhosa como a filha mestiça de Juanita Moore, que tenta se passar por branca e rejeita a própria mãe. O filme é maravilhoso por suas múltiplas camadas de leitura. Todos aqueles espelhos e escadarias fornecem múltiplas chaves, e se você usar as chaves da psicanálise e da filosofia do desejo de Gilles Deleuze, aí sim sua riqueza é inesgotável. Susan Kohner fez depois, também na Universal, ‘Freud, Além da Alma’, de John Huston, no papel da mulher de Freud. Ou não entendo nada ou a filosofia de Deleuze (e Félix Guattari) é freudiana e a Susan Kohner foi a mais ‘freudiana’ atriz de sua geração. (Estou brincando, hein?) Estou escrevendo este post e viajando na alta cultura, mas deve ser a influência da França, o fato de haver respirado ar francês nos últimos dias. Sirk e o melodrama viraram material de estudo de intelectuais como Lacan, e aqui uns intelectuais de meia-tijela sempre acharam suspeito este cinema de lágrimas. Tanta porcaria que passa por alta cultura e tanta alta cultura tratada como porcaria. Ó céus…!