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Luiz Carlos Merten

15 Dezembro 2006 | 19h24

Hoje, foi um daqueles meus dias tão punks que não tive tempo, até agora, de postar nada no blog. Como estou indo ver a versão teatral de A Estrada da Vida (La Strada), do Fellini, não tenho muito tempo, mas não quero deixar o dia passar em branco, até por dois motivos. Flávia Guerra já veio correndo me contar que O Céu de Suely, do Karim Aïnouz, foi duplamente vencedor no Festival de Havana, ganhando como melhor filme e melhor atriz, a genial Hermila Guedes. Parabéns! O júri de Havana seguiu direitinho o caminho apontado pelo da APCA, na segunda-feira. Queria até voltar àquela coisa do Antonioni, a propósito do Suely, porque a referência a Vidas Secas, pelo amor de Deus!, não é no sentido do retirante, o que seria pobre, mas no do sonho. As vidas não são secas só por causa da fome, não. E a Suely, quando cai na estrada em busca de um sonho, aponta um caminho muito interessante que não é Antonioni nem Wenders, mas no qual Antonioni está presente pela solidão e pela incomunicabilidade. Aliás, o grande crítico gaúcho Enéas de Souza, nos anos 60, no calor da hora, analisou a influência do Antonioni sobre Nelson Pereira dos Santos e a de Resnais sobre Glauber Rocha. O sol do Antonioni é ontológico, o do Nelson (em Vidas Secas) é sociológico, mas em ambos temos uma opressão do humano que se manifesta na construção espacial dos planos. Nunca mais ninguém fez este tipo de análise, o que é uma pena, acho. Seria o caso de a gente voltar ao assunto. Mas a outra informação que quero dar é a de que vi hoje o novo filme do Minghella, com Jude Law, Robin Wright Penn e Juliette Binoche. É curiosa a minha relação com esse diretor. Seu filme mais famoso, O Paciente Inglês, é o de que menos gosto. Mesmo achando inferior à de René Clément, O Sol por Testemunha, acho sua versão de O Talentoso Ripley muito legal – só não é melhor por causa do Matt Damon, meia-boca como o escroque que Alain Delon criou magnificamente. Achei Cold Mountain muito bonito e me emocionei com a história de amor de Jude Law e Nicole Kidman, como agora, de novo, me emocionei com Jude em Breaking and Entering, que vai ter um título tipo ‘invasão de privacidade’, mas que não é este, que já pertence a um filme (ruim) do Philip Noyce. Achei uma coisa muito bonita o triângulo que Jude forma com Robin e com Juliette e acho que a mulher do Sean Penn está maravilhosa – mas não vi o nome dela no Globo de Ouro, talvez não tenha olhado direito. Juliette faz uma muçulmana da Bósnia que entra na vida de um casal inglês em crise como uma fantasia do marido e o filme fala de um tema ao qual sou muito sensível, porque me toca demais – as escolhas que temos de fazer, as renúncias, o que a gente perde e o que ganha quando escolhe. Ficam os dois breves registros. Amanhã tem mais, espero.