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Luiz Carlos Merten

22 Julho 2009 | 14h43

Tenho de agradecer mais uma vez a Mário Kawai. Se não fosse o Mário… Não sabia, sinceramente, do ciclo que o CineSesc dedica a Marguerite Duras, em comemoração aos 50 anos de ‘Hiroshima, Meu Amor’. O clássico de Resnais será exibido hoje às 21h20 na sala da Rua Augusta. Amanhã, às 19h20, passa o melhor filme de Duras, ‘India Song’. Ela morreu em 1996, aos 81 anos. Ganhou o Goncourt e outros prêmios de prestígio, mas Madame Duras foi a primeira a tomar um choque quando ‘O Amante’ virou fenômeno editorial. Ela estava tão acostumada a ser autora de prestígio sem vender… Duras deu uma entrevista dizendo que se considerava ‘assassina do cinema’. Na verdade, se ela se insurgiu contra alguma coisa foi contra o ‘movimento’, um conceito tão forte do cinema industrial/comercial – Hollywood – que a palavra ‘movies’ tem a mesma raiz. Conta a lenda que Duras aceitou escrever o roteiro de ‘Hiroshima’ porque queria aprender sobre cinema com quem sabia (Resnais). Ele já havia feito todos aqueles curtas – ‘Toute la Mémoire du Monde’, ‘Les Statues Meurent Aussi’, ‘Nuit et Broullard’, ‘Guernica’, ‘Van Gogh’… Contratado para fazer um filme sobre a bomba atômica, resnais sentiu que estava a reproduzir a experiência de ‘Nuit et Brouillard’. E, por isso, chamou Duras. Ele não queria a presença, queria a memória da bomba de Hiroshima. Duras era a colaboradora certa. Em todos os livros e, depois, filmes durasnianos, o tempo sempre substitui o sujeito. E surgiu a história dessa atrix (Emmanuelle Riva) que vai fazer um filme sobre a paz em Hiroshima. Ela se envolve com uma japonês e revive com ele, por meio dele, outra história de amor, com um soldado alemão, durante a 2ª Guerra, na França. O tempo do filme é o tempo dessa verdadeira psicanálise que Riva é induzida a fazer. Ela pergunta ao amante por que ele quer saber tanto sobre Nevers, a cidade no interior da França onde ela se tornou amante do ocupante nazista? Eiji Okada, emblemático na sua virilidade – e naquela voz –, diz que é porque foi lá, em Nevers, que ele poderia ter perdido Riva. Ela vive em desordem interior. O homem, como um psicanalista, a ordena (ou reordena) – vai ser assim, de novo, com Giorgio Albertazzi e Delphine Seyrig em ‘O Ano Passado em Marienbad’. Duras, portanto, queria aprender a fazer cinema com Resnais e é preciso lembrar que ela estava decepcionada com a adaptação que René Clément fizera de ‘Barrage contre le Pacifique’, que virou ‘Terra Cruel’ em 1958. Resnais a incentivava a fazer literatura. ‘Hiroshima’ é um dos filmes no meu panteão. Não o troco por Godard (‘Acossado’) nem Truffaut (‘Os Incompreendidos’). Algho mágico ocorre comigo quando entra a voz de Okada, dizendo ‘Tu n’as rien vu à Hiroshima’ e `a voz dele se superpõe a de Riva, falando atropeladamente, musicalmente – ‘Oui, je tout vu…’ Hoje, pouca gente se lembra, mas tão discutido – ou quase – quanto o travelling avante sobre a imagem morta de Riva em ‘Kapò’, de Gillo Pontecorvo, foi, há 50 anos, o fato de Resnais e Duras tratarem como iguais o drama de Riva em Nevers e o genocídio em Hiroshima. O filme é maravilhoso. Tem aqueles atores – Riva parece uma escultura dotada de voz –, aquela música (foram dois compositores e dois fotógrafos, para as cenas no Japão e na França). Não conheço nada mais belo do que as cenas que reconstituem o romance de Riva e do soldado alemão. ‘On faisait l’amour par tout…’ Nos bosques, nas ruínas. Há uma precisão de ourivesaria entre a música, a montagem e aqueles planos acelerados do casal, ela largando a bicicleta, correndo para ele, ele abrindo os braços antes de se esconderem, feito animais, em, suas tocas, para amar. A memória é o tema de ‘Hiroshima’, a memória é, de novo, o tema de ‘India Song’. Delphine Seyrig, Michel Lonsdale e Mathieu Carrière estão no elenco. O filme conta a hisrtória de um amor vivido na Índia, nos anos 30, sobre o qual falam vozes sem rosto (dois homens e duas mulheres). O filme de 1975 teve uma continuação, acho que do ano seguinte, ‘Son Nom de venise dans Calcutà Désert’, onde reaparecem as vozes e os atorers só surgem fugazmente numa cena. O emblema do cinema de Duras talvez seja ‘O Caminhão’, de 1977. Cinema se faz com palavras. Gérard Depardieu e a própria Duras sentam-se em frente a uma mersa. Ela lê para ele trechos do roteiro de ‘Le Camion’, sobre uma mulher que pega carona nas estradas e fala o tempo todo. De vez em quando, aparece alguma imagem fora do território que foi descrito. Fui ao arquivo do ‘Estado’ e descobri que, em setembro de 1982 – há 27 anos – o MIS promoveu um c iclo pioneiro para relembrar a nouvelle vague de Duras. Eu não estava em São Paulo, muitos – a maioria de vocês – nem eram nascidos. Os filmes eram os mesmos. ‘Nathalie Granger’, ‘Aurelia Steiner’… O tempo passa e o enigma da mulher que se considerava ‘assassina do cinema’ persiste.