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Cultura » O caso Dorothy Stang

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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2009 | 13h44

Até hoje tenho o maior sentimento de culpa. Em outubro passado, fiquei horas conversando com Daniel Junge, diretor do documentário ‘Mataram Irmã Dorothy’, exibido na Mostra de Cinema. O filme havia passado no Festival do Rio, mas não encontrei o diretor, esperando para recuperá-lo aqui. Junge me impressionou. É um garotão, podia estar fazendo filme de surfe – sem preconceito com os surfistas; bem, um pouco… –, mas foi se embrenhar no Pará para reabrir o caso da freira assassinada. Existe esperança, sim, quem disse que não? Perdi a data, ou o quê, a matéria sobre Junge nunca saiu, seu filme foi para o limbo em que some a maioria dos documentários políticos – terá ‘Cidadão Boilesen’, que acaba de vencer o É Tudo Verdade, o mesmo destino? Espero que não… Mas pode ser que ‘Mataram Irmã Dorothy’ ganhe uma sobrevida. O Tribunal de Justiça do Pará anulou a decisão do júri que, no ano passado, absolveu o acusado de ser um dos responsáveis pelo assassinato da missionária norte-americana, naturalizada brasileira, Dorothy Stang, em 2005. O TJ também mandou prender o fazendeiro, até que se faça novo julgamento. Irmã Dorothy militava, no Pará, em defesa da floresta amazônica e dos agricultores sem terra. Envolvida com o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) no município de Anapu, ela virou importante, no País e no mundo, na luta contra o desmatamento e a grilagem de terras. Quem é contra documentários como o de Daniel Junge em geral critica o envolvimento dos autores com o material, a parcialidade etc. Cobra-se muito a chamada ‘isenção jornalística’, que raramente existe, e o conceito do documentário como ‘cinejornal’ é um tanto esdrúxulo, mais velho que o cinema. Se 14 anos de É Tudo Verdade ainda não mudaram isso, valha-nos Deus! Mas o interessante é que Junge deu voz a todo mundo. Tem gente que esculhamba irmã Dorothy, que a chama de agente da CIA, lideranças do movimento criticam seus métodos. Ele não tirou nada disso do filme, mas sua simpatia, seu coração vão para ela. E Junge não precisa nem criticar. O descaso das autoridades num território sem lei, a atuação dos advogados de defesa dos fazendeiros, que riem, escrachadamente, da Justiça. Devem ter se esgasgado no próprio riso. Seria um bom momento para encontrar um espaço para ‘Mataram Irmã Dorothy’ – alô/alô Adhemar Oliveira, Jean-Thomas Bernardini, André Sturm – no circuito de São Paulo.