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Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2007 | 10h59

Jean Renoir foi o grande precursor do neo-realismo e não apenas por ter realizado Toni em cenários naturais, com a participação de atores não profissionais, ou por ter introduzido Luchino Visconti no mundo do cinema, antes que ele fizesse o filme que foi um marco, ou o marco, do movimento – Obsessão, em 1942. Renoir, com A Grande Ilusão, às vésperas da 2ª Guerra Mundial, também criou a utopia do mundo sem fronteiras, na qual viajaram tantos autores neo-realistas. Ontem fui (re)ver O Caminho da Esperança, de Pietro Germi, no ciclo Olhares Neo-Realistas, no Centro Cultural Banco do Brasil. A cópia era um horror de precária e o próprio filme, sob múltiplos aspectos, ficou datado, mas adorei rever O Caminho da Esperança. Aliás, foi como se estivesse vendo o filme pela primeira vez. Lembrava-me de cenas como a da siciliana que se perde na grande cidade, procurando seu homem, e da luta de faca, na estrada, mas o resto ficara muito bebuloso, porque vi O Caminho quando era guri, em Porto Alegre, em meio a uma enxurrada de westerns e filmes de aventuras que formavam o programa duplo nas matinés de domingo, no velho (e hoje extinto) Cine Rival. O neo-realismo teve muitas etiquetas, ou algumas, pelo menos. Foi social com Rossellini, Visconti e De Sica, róseo com Luigi Comencini e pode-se dizer que foi romântico, com Germi. O Caminho tem toda uma base fortemente realista, contando a história desse grupo de meridionais que vende tudo na terra natal e parte em busca de melhores condições no exterior. No caminmho, são traídos e abandonados, mas não desistem. O final é quase um repeteco da lição de Renoir em A Grande Ilusão. As fronteiras são invenções dos homens, a terra é uma só. O grupo, salvo aqueles que ficaram pelo caminho, chega pertinho do seu destino. Ali, do outro lado, está a França. Surgem os guardas. Todo o esforço terá sido em vão? O olhar do menino sensibiliza um dos guardas, que os deixa passar. Apesar de toda a origem realista, o filme é uma fantasia romântica. E permanece bonito, com todos os seus defeitos, que o tempo fez crescer. O que mais me comoveu foi o olhar calmo do jovem Raf Vallone e a beleza rude, com seus grandes olhos, de Elena Varzi. Imagino que todo autor busque a perfeição em sua arte, mas o que mais nos atrai em determinados filmes é a imperfeição, o defeito. Rossellini não se importava de incorporar a imperfeição. Germi tinha um olho plástico para a composição dos planos. Buscava criar uma montagem ‘musical’. Hoje, muitas de suas cenas parecem primitivas, mas nada é ridículo. Apesar dos riscos, dos cortes na cópia caindo aos pedaços, gostei de (re)ver O Caminho da Esperança e espero que os meus companheiros na sessão de ontem, no CCBB (havia um público razoável para uma sessão às 17 horas de domingo), tenham gostado, também.