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Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2007 | 10h21

Às vezes, estou escrevendo alguma coisa nos Filmes da TV, como agora, e me vem uma vontade rápida de postar. A Globo coloca amanhã em votação no Intercine, para exibir na quarta, dois filmes. Um deles é O Cadete Winslow, que David Mamet adaptou da peça do Terence Rattigan, sobre garoto que é expulso da academia militar, na Inglaterra, no começo do século passado, e seu pai, na tentativa de limpar o nome da família (o menino foi acusado de roubo), provoca um tal situação que ameaça desintegrar o núcleo familiar. Me lembro perfeitamente – o filme foi exibido no Festival de Cannes, em 1999, quando entrevistei o Mamet. Havia gostado (muito) de As Coisas Mudam e, por algum motivo, fiquei muito tocado pelo Cadete. O motivo mais óbvio é que o filme é bom, claro, mas tem mais que isso – sou muito sensível às histórias sobre responsabilidade paterna, até porque sou pai, também. Acho o filme do Mamet de uma elegância e de uma contenção verdadeiramente admiráveis. O mundo, a família ameaçam se desintegrar, mas ele filma a aparência – não sei mais quem disse que a sociedade inglesa é a mais hipócrita do mundo e, por isso, eles têm os maiores atores. Pode não ser correto, mas é uma avaliação e tanto. Ingleses já nascem representando nessa sociedade de aparências. Mas eu gostei do que o Mamet disse. Autor consagrado de teatro, ele quis filmar The Winslow Boy porque considera a peça de Rattigan uma das maiores já escritas, acrescentando que o fundo (o tema) é servido por uma forma esplêndida. A carpintaria teatral de O Cadete Winslow só tem paralelo nos maiores autores, garante Mamet. Tudo isso me veio por causa do Intercine. Em Cannes, anos antes, havia entrevistado Mike Figgis, que fez outra adaptação de Anthony Asquith, e de outro filme baseado numa peça de Terence Rattigan, The Browning Version. Os dois filmes, o de Figgis como o anterior, de Asquith, receberam o mesmo título no Brasil – Nunca te Amei. Figgis dizia a mesma coisa – que Rattigan é o mais subestimado dos grandes autores e que as peças dele são geniais. Por que escrevo isso? Filho de um primeiro-ministro, Anthony Asquith virou um diretor de prestígio. Nos anos 40 e 50, a Inglaterra já tinha Carol Reed e David Lean. AA representava o academicismo glacial de um cinema de classe, contra o qual se insurgiu o free cinema – como havia ocorrido, na França, com a nouvelle vague, que negava o que seus integrantes chamavam de cinema de ‘papai’, praticado pela acadêmica geração anterior. Opor-se ao estabelecido faz parte de quem, ou de toda geração, que quer se afirmar. Só a história termina colocando as coisas em perspectiva. Hoje, já existem críticos que ‘ousam’ apontar as obras-primas do cinema francês pré-nouvelle vague (e não são somente os filmes de Renoir, que Truffaut e Godard defendiam). O free cinema foi para o ralo (e, salvo exceções, nem era tão bom, além de dever muito a autores de teatro como John Osborne e Shelagh Delaney). Mamet e Figgis elogiam Rattigan e os filmes que AA realizou, adaptados de suas peças. Nunca vi o Winslow boy de AA, que se chamou Um Caso de Honra, no Brasil. Mas gosto demais do de Mamet, que sempre me encanta (e já vi inúmeras vezes na TV paga). Acho legal que se possa falar bem de autores relegados ao ostracismo em nome de modismos que também já passaram. Como diz o José de Alencar, no desfecho de Iracema – tudo passa sobre a Terra.