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Luiz Carlos Merten

08 Maio 2007 | 11h01

Preciso aproveitar o comentário da Pedrita, no post sobre Ennio Morricone, para saldar uma dívida – que é minha. Sylvio Back não está me cobrando nada. Eu é que me sinto em débito com ele. Iniciei um livro sobre SB na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, mas até hoje não concluí o volume. Escrevi dois, um sobre Anselmo Duarte, o outro sobre Carlos Coimbra, que me saíram com grande facilidade. No do Sylvio, empaquei e olhem que a iniciativa foi minha. Propus a Rubens Ewald Filho, que organiza a coleção, e ele topou. Acho que Sylvio Back é daquelas figuras que vale resgatar, no panorama do cinema brasileiro. Ele começou fazendo cinema fora do eixo, numa época em que isso era ainda mais difícil. Fez Lance Maior, um raro filme sobre a classe média – numa época em que Arnaldo Jabor e Antônio Carlos Fontoura também dirigiam suas lentes para esse segmento, em Opinião Pública e Copacabana Me Engana. Mais para o fim dos anos 70, SB realizou seu melhor filme, Aleluia, Gretchen, que foi montado pelo Inácio Araújo. Participei de um debate recente sobre o filme, que discute a presença nazista no Brasil. Inácio estava na mesa. Foi muito interessante. Já tinha (tenho, ainda) título para o meu livro sobre Sylvio – é O Cacique do Sul. Era assim que Glauber Rocha o chamava. Infelizmente, o cacique do Sul nunca foi analisado em profundidade, talvez por ser um solitário, não se identificando com nenhum grupo ou movimento. SB virou documentarista, num determinado momento. Fez vários documentários que retraçam eventos importantes da história do País (Revolução de 30, Guerra do Paraguai). Provocou polêmica com seus documentários sobre a FEB e a forma como o cinema brasileiro vê o índio. Um dia, falava com um famoso documentarista e ele citou o nome do Slívio. Perguntei, um tanto ingenuamente, o Back? O cara me fulminou com o olhar. Não, claro, o Tendler. Percebi que ele nem considerava SB um diretor de documentários, embora eles somem mais (bem mais) que a metade de sua obra. Enfim, estreou na semana passada o Lost Zweig, que culmina um processo de décadas. SB sempre foi obcecado pela presença do escritor austríaco no Brasil. Stefan Zweig foi daqueles estrangeiros que tentaram entender (ou decifrar) o País. Em 1936, ele esteve aqui e escreveu um livro chamado Brasikl, País do Futuro. Voltou, agora fugitivo do nazismo. Conta a lenda que quando Orson Welles veio fazer It’s all True, seu filme mítico (e inacabado), queria se encontrar com Zweig, que morava em Petrópolis, no Estado do Rio, mas o encontro nunca ocorreu porque Zweig, duas semanas após a chegada de Welles, se matou. Mataram-se, a mulher, Lotte, e ele. Foram encontrados evenenados na cama. Welles e It’s all True viraram uma obsessão para Rogério Sganzerla. Zweig virou outra, para SB. Seu filme não é um documentário tradicional. Trafega nos limites da ficção e do documentário. Seria, como se diz, um docudrama, interpretado por ótimnos atores (Rudiger Vogler, dos filmes de Wim Wenders, e Ruth Riesel). Arrisco a mais simples das interpretações. Não, não é o fato de que Zweig escrevesse em língua alemã e SB seja descendente de alemães, também preocupado em entender o Brasil. Talvez seja algo muito mais visceral. Como Zweig, o pai de Sylvio se matou, quando ele era pequeno. Ele conta no livro inacabado o efeito que aquilo lhe causou. Posteriormente, escreveu um pequeno livro sobre o suicídio, que Albert Camus considerava o único (ou grande?) problema moral. Lost Zweig, com o subtítulo Os Últimos Dias de Stefan Zweig no Brasil, está em cartaz numa sala. Queria fazer uma grande entrevista com o Sylvio, mas fui para o Rio, correr atrás do Morricone, e faltei com ele, num filme tão decisivo. Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, fez a crítica publicada no Caderno 2. Ele vê méritos no trabalho do Sylvio, mas deplora que o diretor tenha usado o inglês como idioma. SB fez isso de olho no mercado internacional? Foi uma submissão ao cinema hegemônico? O próprio Sylvio poderia se manifestar. Vocês se manifestem, por favor. E, principalmente, assistam a Lost Zweig. Se eu conseguir levá-los a ver o filme, já me sentirei menos culpado.