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O Caçador de Pipas

Luiz Carlos Merten

20 Janeiro 2008 | 12h46

Olá! cá estou de volta. Cheguei no Rio na sexta à tarde e só consegui ver ‘O Caçador de Pipas’ ontem à noite. Estou postando na sucursal e, dentro deste espírito ‘confessional’ que volta e meia toma conta de mim, tenho de dizer que estou morrendo de dor. Nunca tive problema de coluna, mas sei lá, desde ontem à tarde, quando voltei de Búzios, estou todo torto. Na volta, cansado, dormi de mau jeito, curvado sobre o cinto de segurança. Pode ter sido isto, não sei. Mas dói! Será problema de coluna? Se for, agora entendo perfeitamente as pessoas que sofrem deste mal. Me lembro de ‘Jules e Jim’, do Truffaut, quando o amigo de Oskar Werner e Henri Serre cita Oscar Wilde, pedindo a Deus que o poupe da dor física, porque da moral ele se ocupa. Estou mais ou menos assim. Mas, enfim, vamos ao Marc Foster e seu ‘Caçador de Pipas’, adaptado do romance de Khaled Hosseini. Tive um pouco a mesma sensação do Otávio. Eu, que chorei no trailer, fiquei meio frio diante do filme. Durou cinco minutos. Quando saí do cinema – Unibanco Arteplex, em Botafogo -, atravessei a rua e, feito o Zampano (de ‘A Estrada da Vida’, de Fellini), fui atraído irresistivelmente para o mar. Não tinha ninguém naquela hora, ainda mais que estava chuviscando – apenas um povo jogando bola, um pouco longe – e aí eu confesso que desabei, diante daquele marzão agitado. Chorei, sim, mas isto não tem nada a ver e eu sei que não é nenhum critério estético de avaliação, embora também não exista nenhum decreto dizendo que não se deva (ou se possa) chorar. Se eu choro diante dos girassóis do Van Gogh é uma questão minha. Se eu fiquei siderado diante da ‘Origem do Mundo’, de Courbet, é coisa que diz respeito a mim. A fruição artística, afinal, é um ato individual e cada um reage à sua maneira. Mas o que me deu foi uma violenta comoção interna. Havia lido na Folha – fui obrigado, havia uma farta distribuição na hora do embarque – que o filme expressava a ideologia anti-muçulmana do Bush. ‘O Caçador de Pipas’? O filme que vi ontem? Entendo perfeitamente quando as pessoas dizem que não têm paciência com críticos, porque eu também não tenho. Os coleguinhas em geral cobram complexidade, mas têm um olho completamente torto para aquilo que, a priori, já sabem que não devem (porque não é de bom tom) gostar. Sempre achei que o tema essencial do cinema de Marc Foster fosse a morte, mas não. Descobri agora que é a paternidade e que ‘O Caçador de Pipas’ incorpora as duas paternidades, a biológica e a artística. Não vou dar asssim impunemente o mapa da mina. mas tentem pensar o filme por este lado. O pai biológico, o adotivo, o literário (o que é ‘autor’). E tem ampliar o paternidade, do contexto familiar para o político. Por exemplo – quem é pai da pátria em ‘O Caçador de Pipas’? Já ouvi gente lamentando que Foster não tenha a complexidade do Clint Eastwood de ‘Iwo Jima’, mas a comparação não deve ser esta e sim com o outro Clint que tratou do abuso infantil em ‘Mystic River’. O Talibã é monstruoso no filme, mas é um pouco mais complexo do que puro maniqueísmo. Quando o talibã (o homem, não mais o movimento) fala para o herói da herança russa que foi preciso erradicar no Afeganistão, aquilo é muito forte e verdadeiro. E os EUA não são uma terra de sonho. O protagonista é estrangeiro em Cabul – é o que lhe diz o talibã -, da mesma forma como ele e todos aqueles afegãos são estrangeiros na ‘América’, tentando manter sua cultura. (Falei na paternidade, mas o tema definitivo de ‘O Caçador de Pipas’ não será, por acaso, a linguagem?) E a metáfora da pipa é linda. Todo o final, quando Amir tenta motivar o garoto para o jogo e, depois, quando ele corre, e repete a frase do amigo de infância, nada daquilo me parece melodramático. É triste, isto sim. Puta filme triste, este ‘Caçador de Pipas’. Foi uma bomba retardada. Quando explodiu, eu implodi. Ainda não consigo avaliar quanto gostei do filme, mas que me impressionou (muito), sim.