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Cultura » O bonde chamado desejo na rua do pecado

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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2009 | 10h38

Repito que nunca havia visto ‘Uma Rua Chamada Pecado’ no cinema. Vi o filme que Elia Kazan adaptou de ‘Um Bonde Chamado Desejo’, de Tennessee Williams, na TV, e tinha uma lembrança meio vaga, reforçada pelo entusiasmo de Pauline Kael. Em ‘Kiss Kiss Bang Bang’ – no Brasil, o livro atualizado saiu como ‘1001 Noites’, eu acho (precisaria checar) -, a crítica celebra a interpretação de Vivien Leigh como a maior registrada por uma câmera de filmar. Confesso que fiquei meio desconcertado com ‘A Streetcar Named Desire’. O filme todo me pareceu datado. Marlon Brando, como Kowalski, o bruto sedutor, com sua T-shirt, talvez seja o homem mais bonito do cinema – mais do que os jovens Alain Delon e Paul Newman, perdoem-me a viadagem -, e eu gostei muito de Kim Hunter, como a irmã de Blanche Dubois, e de Karl Malden, como o pretendente que se acovarda com o passado da heroína. O que eu menos gostei foi de Vivien Leigh. Ela é maravilhosa, não há como negar, mas é tão intensa que eu me pegava incomodado com certos excessos de sua interpretação, para mostrar a tensão sexual entre Blanche e Kowalski . Lembrei-me de que Kazan, no livro com a entrevista que concedeu a Michel Ciment, conta que nunca teve tantos problemas com uma atriz. Queria reler o texto, mas ainda não encontrei tempo. Kazan conta que Vivien infernizava a vida dele no set, lembrando a todo momento que interpretara Blanche no palco, em Londres, sob a direção de Laurence Olivier, e Larry, seu marido (ainda, na época), tinha outra concepção da personagem (que ela preferia). Revi o filme com aquela sensação de que estava num museu, mas lá pelas tantas a poesia de Tennessee Williams me apanhou. O texto do cara era maravilhoso, mas nada naturalista e isso impunha um estilo meio over de mise-en-scène. Em ‘De Repente, no Último Verão’, Joseph Mankiewicz também teve de lidar com aquela poesia torta que Tennessee usava para metaforizar um assunto proibido como o homossexualismo, por meio de plantas canibais e outros desatinos (o olho de Deus no jardim do mal). Estou escrevendo e me lembrando de que Mankiewicz também comeu o pão que o Diabo amassou com Katharine Hepburn, que o achava muito rude com Montgomery Clift. Conta a lenda que, buscando determinado efeito cênico, Mankiewicz pisou nos calos de Monty, jogando na cara dele seu homossexualismo – e a fixação platônica em Liz Taylor. Kate teria ficado tão exasperada que cuspiu – é o que dizem – no rosto do diretor. Será verdade, ou lenda? Fiquei com vontade de rever ‘Suddenly Last Summer’ e as adaptações de Tennessee Williams por Richard Brooks, ‘Gata em Texto de Zinco Quente’, em que aquela anágua de Liz fez história em Hollywood, e ‘Doce Pássaro da Juventude’, com Geraldine Page.

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