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Luiz Carlos Merten

05 Fevereiro 2007 | 17h29

Depois da gafe do outro dia, estou indo para o Festival de Berlim, onde ‘fui’ entrevistar Clint Eastwood, espero poupar os leitores de semelhantes desatinos. Mas estou voltando agora de Alphaville, onde fui ver, na cabine da Cinecolor, ao filme de Robert De Niro, The Good Shepherd, O Bom Pastor, que também estará em Berlim (e existe a possibilidade de que eu também entreviste De Niro e o ator Matt Damon). Havia lido vagamente que o filme trata da criação da CIA, mas não esperava encontrar um drama com aquela densidade. Havia um grupo que também viu o filme e, no final, comentei que devo estar ficando velho, sensível demais, mas tinha saído da sessão destruído. Todos concordaram, mas aí quando alguém comentou que era longo, que tinha excesso de tramas etc, comecei a achar que talvez eles tenham ficado destruídos por motivos diferentes dos meus. Eu fiquei arrasado porque achei o filme muito forte, muito triste. Nos anos 60, Otto Preminger fez um punhado de grandes filmes (Exodus, Tempestade Sobre Washington, O Cardeal e A Primeira Vitória) para debater o choque entre o indivíduo e a instituição da qual ele faz parte e que, invariavelmente, o supera (a Revolução, a Política, a Igreja e o Exército, no caso, a Marinha). São filmes sobre sujeitos destruídos internamente por suas crenças, que envelhecem e morrem tendo dedicado suas vidas e elas e, no final de cada filme, a instituição está sempre forte e os caras se foram. Tive um pouco essa sensação. O filme é crítico em relação à CIA, ao mundo da espionagem. Arma um jogo de geopolítica e deixa claro que a URSS talvez nunca tenha sido uma ameaça real para o poderio americano e sim, uma desculpa para o fortalecimento do complexo militar. A URSS ruiu, foi-se o comunismo e hoje temos outras desculpas para continuar fortalecendo a máquina de guerra americana, já que ela, vamos ser objetivos, movimenta a economia. Tudo isso é verdade, mas o horror do filme vem desse sujeito que tem uma mulher com quem se casa, outra a quem ama e um filho, e no processo, no jogo da espionagem e da contra-espionagem, termina destruindo tudo (e a si mesmo). Deus do céu. depois do depressivo Cartas de Iwo Jima, outro filme para baixo. Um terceiro eu acho que não agüento. É uma mudança e tanto para De Niro como diretor, embora seu primeiro filme, Desafio no Bronx, já tratasse da família, no centro de uma história que envolvia, lá, a criminalidade urbana (aqui é outro tipo de criminalidade). Quero dizer que gostei demais de Angelina Jolie, que faz a mulher de Matt Damon. Desde que foi eleita a mulher mais sexy do mundo, Angelina estereotipou no modelito e faz sempre aquela boca (siliconada) que parece dizer – ‘Olha como sou gostosa!” Nem me lembrava mais como Angelina consegue ser boa atriz. Ela continua bonita, e sexy, mas sua personagem é bêbada, acabada, porque não há como viver com esse sujeito que, no mundo dos secretas, tem o codinome de Mãe. É um toque muito interessante que você vai ver quando assistir a O Bom Pastor. O título vem da Bíblia e tem a ver com a obsessão pela sinceridade de um personasgem que as circunstâncias levam, o tempo todo, a mentir para os outros e para si mesmo. A estréia está apontada para dia 23, após Berlim (e o carnaval), às vésperas do Oscar.