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Luiz Carlos Merten

08 Julho 2011 | 09h31

Mauro Brider pega carona no post sobre ‘O Resgate do Bandoleiro’ para dizer qual é seu Budd Boetticher favorito. ‘O Rei dos Facínoras’, The Rise and Fall of Legs Diamond. Não estás sozinho, meu amigo. Por melhores que sejam os westerns de Boetticher com Randolph Scott, há um culto ao filme de gângsteres  com Ray Danton, que meu amigo – e mentor – Jefferson Barros colocava num nicho todo particular. Lembro-me do Jefferson identificando em Legs Diamond o estranhamento brechtiano, numa época em que, em Porto Alegre, éramos todos loucos por Joseph Losey, que havia colaborado com o próprio Brecht no teatro. Ray Danton! Não creio que existam muitos espectadores capazes de se lembrar desse ator, mas ele teve seus papéis e a cena como músico que abusa da ninfômana Claire Bloom em ‘A Vida Íntima de Quatro Mulheres’, de George Cukor, possui uma força que o tempo não diminui. Cukor sempre se queixou da remontagem que os produtores fizeram de seu filme, mas atrizes como as de ‘A Vida Íntima’ (The Chapman Report) e o uso da cor, num espectro que vai do branco da frígida Jane Fonda ao marrom da degradada Claire faz parte do que consdidero as minhas experiências inesquecíveis de mise-en-scène. Havia algo que me seduzia em Ray Danton. A voz  Ele falava naquela mesma entonação anasalada e cortante de Lee Marvin. Sensacional!  E tenho de confessar. Ray Danton foi Sandokan nas adaptações que o cinema italiano fez dos romances de aventuras de Emilio Salgari, por volta de 1960. Agora mesmo estou lendo ‘O Rei do Mar’. De volta a Budd Boetticher e a ‘O Rei dos Facínoras’. Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon dissecam a forma como ele trabalha o filme no registro da comédia, que sofre uma reviravolta e fica cada vez mais trágica. Poucos filmes de gângsteres – e não apenas – tocam de forma tão intensa na questão do poder e do que ele representa, como signo ou força. Brecht puro, e no cinema, uma mídia que não se destina particularmente ao estranhamento que Bertolt queria criar. Tenho para mim que aqueles espelhos que Boetticher criava nos westerns, para fazer com que o mocinho e o bandido intercambiassem posições, já era embebebido de Brecht. Grande Boetticher. A Lume ou a Versátil realmente nos fariam um favor exumando ‘O Rei dos Facínoras’.

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