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Cultura » O bem-amado de Kirk Douglas

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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2006 | 18h53

Tive de fazer hora, ontem, no Arteplex, à espera da sessão de Cassino Royale. Jantei, fui nas Lojas Americanas conferir os DVDs (eles sempre têm ótimas ofertas), mas desta vez a surpresa veio do balcão de jornais e revistas no segundo andar. Dei uma olhada no que havia por ali e encontrei, por R$ 9,90, o DVD de Gentil Tirano, lançado por Movie Magazine. Robert Taylor já tinha passado da idade para fazer Billy the Kid em 1941, mas esta é a única objeção que pode fazer à cinebiografia do famoso pistoleiro cuja história também foi contada por Arthur Penn (Um de Nós Morrerá, com Paul Newman) e Sam Peckinpah (Pat Garret e Billy the Kid, com Kris Kristofferson). David Miller é um daqueles diretores que os críticos chamam de ‘artesão’ e negligenciam, achando pouco valor no que produziram. Ele deve sua fama a um ótimo suspense (Precipícios d’Alma/Sudden Fear, de 1952, com Joan Crawford como a mulher que descobre que o marido quer matá-la e se antecipa no crime), mas foi no western que Miller deu suas contribuições mais valiosas. Gentil Tirano foi precursor na abordagem do enfoque psicanalítico do Velho Oeste, numa época em que os relatos eram mais simples e diretos. Só uma década mais tarde, com a violência barroca de Anthony Mann, o cinema aprofundou a trilha aberta por David Miller ao contar a história de Billy the Kid, com ênfase no período em que tentou viver dentro na lei. Nunca esqueci uma observação que Rubens Ewald Filho fez em seu antigo Os Filmes de Hoje na TV (que não tenho à mão para conferir). Mas tenho certeza que ele chamava Robert Taylor de embonecado e não via como um cara daqueles podia ser bandido. O ponto de David Miller era justamente este e, não por acaso, seu filme recebeu no Brasil o título aparentemente contraditório de Gentil Tirano. Miller fez de tudo, incluindo um filme dos Irmãos Marx (Loucos de Amor, com Marilyn Monroe), mas sua obra-prima foi outro western – ou melhor, um western de ambientação moderna, como seria mais recentemente O Segredo de Brokeback Mountain, no qual o herói é um desajustado social que vive em choque com velhos códigos de comportamento e de ética. Este filme se chama Sua Última Façanha (Lonely Are the Brave, no original) e foi escrito por Dalton Trumbo para o ator e produtor Kirk Douglas. Trumbo, uma das vítimas célebres do macarthismo, havia saído da lista negra graças a Douglas, que, como produtor, lhe permitiu que assinasse o roteiro de Spartacus. O pai de Michael Douglas fez grandes filmes, de grandes diretores. Kubrick, Preminger, Minnelli, King Vidor, Jacques Tourneur, Joseph Mankiewicz, Howard Hawks, Billy Wilder, William Wyler, John Sturges, Richard Fleischer. Em Berlim, ao recebeu seu Urso de Ouro especial de carreira, o velho Kirk, falando com dificuldade, em conseqüência do derrame que sofreu, não hesitou um segundo quando lhe foi perguntado qual o seu filme preferido – Sua Última Façanha, que ele definiu como adiante de sua época, em 1961. Por maior que tenha sido a contribuição de Dalton Trumbo, há, ali, uma noção do espaço que configura uma idéia de mise-en-scène. Quando Douglas tenta disparar a cavalo, no asfalto, fica claro que o Oeste não era mais o da lenda. David Miller simplesmente antecipou o ano decisivo da desmistificação do gênero, 1962, quando John Ford fez O Homem Que Matou o Facínora e Sam Peckinpah iniciou uma verdadeira revolução do gênero, com Pistoleiros do Entardecer.

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