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Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2010 | 14h15

É um dos melhores livros já escritos sobre um diretor de cinema, qualquer diretor – o ‘Claude Chabrol’ de Robin Wood e Michael Walker. Infelizmente, não sei se foi atualizado, porque a edição que tenho, da Editorial Fundamerntos, de Madri, foi comprada na Argentina, no começo dos anos 1970, e vai somente até ‘A Década Prodigiosa’, de 1972, com Orson Welles, Anthony Perkins e Marlène Jobert (a mãe de Eva Green). Wood e Walker fazem uma bela análise de ‘Le Beau Serge’, o primeiro Chabrol, lançado no Brasil como ‘Nas Garras do Vìcio’. O filme está sendo resgatado em DVD. É a obra fundadora da estética chabroliana. Um ano antes, em parceria com Eric Rohmer, Chabrol publicara seu livro, o livro de ambos, sobre Alfred Hitchcock. Há um diálogo profundo entre ‘Nas Garras do Vìcio’ e ‘A Sombra de Uma Dúvida’, que o próprio Hitchcock considerava seu filme mais verossímil. ‘Nas Garras do Vício’ forma um díptico com ‘Os Primos’, feito a seguir, mas pensado antes. É como se Chabrol tivesse feito os dois filmes como antípodas, um contra o outro, contando a mesma história, mas de forma invertida. O primo do interior vai visitar o primo que vive na cidade grande e se corrompe em Paris. Gerard Blain e Jean-Claude Brialy são os atores. Já estavam em ‘Nas Garras do Vício’. O que muda é a atriz, Bernadette Laffont em ‘Nas Garras do Vício’, Juliette Mayniel em ‘Os Primos’.  François (Brialy) volta ao lugarejo em que nasceu e encontra o antigo melhor amigo, Serge (Blain), em estado de degradação alcoólica. Chabrol filmou na própria cidade em que nasceu, em Creuze, usando a população local. Seu filme tem um lado, por assim dizer, documentário e muitos críticos chegaram a achar que o autor, no alvorecer da nouvelle vague, estava reinventando o neo-realismo, mas o desenvolvimento posterior da onbra de Chabrol mostrou que não era nada disso. Como em ‘Sombra de Uma Dúvida’, tudo é duplo. Duas cenas de igreja, duas cenas de garagem, duas cenas de visitas dos detetives à casa, duas cenas de refeições, duas cenas de tentativas de assassinato. Mas a essência de ‘Le Beau Serge’ não poderia ser menos hitchcockiana. O filme trata menos de uma transferência de culpa, tema 100% aparentado a Hitchcock, que de uma transferência de salvação e não deixa de ser necessário assinalar que Chabrol e Rohmer buscaram em Hitchcock justamente o autor católico, criado por jesuítas e obcecado pelos temas da culpa e do pecado. Chabvrol não tinha muito apreço por ‘Le Beau Serge’. Chegou a definir o filme como ‘insuportável’. Mas tudo já está lá. A burguesia provinciana, os monstros chabrolianos. E Brialy, como Jean-Paul Belmondo – nos primeiros filmes de Godard -, era a cara da nouvelle vague. Não revi o filme antes de escrever este post. Outro diretor da nova onda, Philippe de Broca, a quem se deve a admirável comédia ‘O Amante de Cinco Dias’, foi assistente de Chabrol e faz um papel. Sou capaz de jurar que o personagem chama-se Jacques Rivette e qualquer coisa.