Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O belo não é verdadeiro, uma lição de Bruno Dumont

Cultura

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2007 | 08h38

Cheguei hoje no jornal disposto a satisfazer logo a curiosidade do Marcelo, que há tempos me cobra um post sobre A Humanidade, do Bruno Dumont. Marcelo não esclarece se achou o filme maravilhoso, ou não. Faço a ressalva porque me lembro – estava em Cannes quando houve a primeira exibição de L’Humanité no festival. A platéia de jornalistas vaiava, penso que a maioria incomodada com o que havia visto na tela. Entrevistei o Dumont naquele ano (1999) e ele me disse uma coisa interessante – que, ao filmar, pensava o tempo todo no espectador, mas não na forma de facilitar as coisas para ele. Como disse BD – ‘Minha ambição é criar filmes que permaneçam com o espectador após a projeção.” Filmes que sejam experiências estéticas e humanas. A Humanidade passa-se em Flandres, na cidade de Bailleuil, onde o cineasta já havia ambientado A Vida de Jesus. O policial de raciocínio lento também é o mesmo que interrogava o herói desempregado de A Vida de Jesus, que BD havia feito antes. E Flandres daria não apenas o cenário como o nome de outro filme que ele fez depois. Entrevistei duas vezes BD e nas duas insisti na questão de sua proximidade com Robert Bresson. Ele sempre se revelou lisonjeado e entendia o que queria dizer – os temas da comunição e do corpo, a busca da graça, a idéia de que só no alheamento extremo as pessoas conseguem se comunicar. Tudo isso e mais o estilo, ascético, rigoroso, a determinação de filmar com atores não profissionais. Muita coisa aproxima, ou parece aproximar BD de RB, mas, como ele próprio revela, só assistiu ao seu primeiro filme de Bresson com mais de 30 anos, quando já estava formado culturalmente. A base do seu cinema é literária. Dostoievski. Crime e Castigo, O Idiota. O policial de A Humanidade é o idiota de BD. Seu raciocínio lerdo é posto à prova quando tem de investigar um crime violento – o estupro e assassinato de uma garota de 14 anos. ‘Quem pode fazer uma coisa dessas?”, ele se interroga. Todo BD parece caber nesta pergunta. A humanidade que ele filma é capaz das melhores e das piores coisas. E o que ele busca são personagens puros, inocentes. Jesus, o policial, o jovem, que vai para a guerra em Flandres. Gente despreparada e contaminada pela violência do mundo. Vou dizer uma coisa que talvez provoque indignação. Gosto muito de Lacombe Lucien, de Louis Malle, mas sempre prensei que aquele seria um tema (e um personagem) para BD. Seria muito mais visceral, temnho certeza. Confesso que, às vezes, me desconcerto com os filmes de BD. Há neles uma violência física que me bate muito mais do que a de qualquer outro diretor atual, mesmo os que fazem thrillers. O sexo é sempre muito forte. Em Flandres, o rapaz e a garota fazem sexo como qualquer animal da fazenda. Intenso, rápido e brutal. Só depois de todo aquele horror da guerra, ele se transforma e, no fim, chega a dizer que a ama. Bresson, de novo – a declaração no desfecho de Pickpocket, que Paul Schrader também tomou como referência para encerrar Gigolô Americano. De tudo o que BD me disse guardo uma frase que me parece essencial. Ele não quer, nunca quis, fazer filmes que sejam belos para os olhos. O belo, afirma, não é verdadeiro. O que ele propõe é uma experiência que – espera – seja transformadora. BD sempre me lembra minha bíblia, a carta de Van Gogh ao irmão, Theo, na qual ele também diz que a função da arte não é encher os olhos (mas os girassóis dele enchem) e sim, nos consolar perante o sofrimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato