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O belo, artificial?

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2007 | 12h25

Olha o Pedro me cutucando no post sobre Bruno Dumont. Ele pergunta se não haveria, no comentário do diretor, uma confusão sobre belo e artifício? Dumont, falando de A Humanidade, me disse que o belo não é verdadeiro. Mas os filmes dele são belos! Ou não? Não estou pensando naquele plano terrível da vagina dilacerada em L’Humanité, mas da concepção plástica de Flandres. Existem planos magníficos do campo, com a cidade ao fundo. Acho, sim, que BD é contra o belo de fachada, contra a ditadura da cor, da cenografia, quando levam ao artifício. Nem crio caso quanto a isso. Quando intitulei meu filme Cinema, Entre a Realidade e o Artifício, tomando como paradigma o caso de Moulin Rouge, foi dentro desse pressuposto. O máximo de artifício não impede o filme de ser, para mim, visceral ao falar de amor (e espetáculo). Acho, sim, que o recurso ao artifício pode ser (e é) verdadeiro no cinema, até porque o cinema nos mostra sempre o mundo midiatizado pelo olho da câmera. Vemos o que o autor quer que vejamos e isso não é o mundo real, onde podemos construir nossos enquadramentos ou movimentos de câmera (nem que sejam de olhos). Mas compreendo o partido de Bresson, de Dumont. Ele acha que o belo não é verdadeiro. Eu acho que é, e posso citar os grandes filmes de Visconti, Minnelli e Cukor, apenas três exemplos, para mostrar que a extrema beleza visual de obras desses grandes diretores nunca os impediu de penetrar nos meandros da mente enferma de seus personagens (o Van Gogh de Minnelli, interpretado por Kirk Douglas, é maravilhoso.) Brigava muito com meu ex-editor, o agora cineasta Evaldo Mocarzel. Evaldo é bressoniano de carteirinha, a favor do minimalismo cênico e do silêncio. Eu acho que essa é só uma das vias do cinema. Não vou pedir a todo mundo que filme como Bresson, porque isso me privaria do Ennio Morricone nos filmes do Leone. E lá sou eu louco para querer viver sem Il Maestro?

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