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Luiz Carlos Merten

14 Abril 2008 | 12h40

Mário Kawai cita meu colega Zanin (Luiz Zanin Oricchio) e me faz uma sugestão sobre como responder aos comentários que me fazem. Achei legal, Mário, mas não vou seguir o exemplo. Prefiro fazer como sempre faço. Retomo o comentário e o transformo no tema de um novo post, mesmo que demore um tempo (ou misture alhos com bugalhos, o que é, afinal, o meu estilo). Mas, às vezes, as coisas se juntam. Encontrei minha colega jornalista Regina Ricca no sábado à noite, no Arteplex – quando fui ver ‘Um Plano Brilhante’ – e ela, que ia ver ‘Um Beijo Roubado’, me perguntou o que havia achado do novo filme do Wong Kar-wai. Disse que tinha achado lindo, mas não era muito-muito bom. Regina me olhou com cara de quem não estava entendendo. Lindo, mas não bom, como é isso? Agora de manhã, Antônio Gonçalves Filho também veio comentar o novo Wong Kar-wai comigo. O filme é lindo – e a cena do beijo roubado é de deixar a gente babando –, mas eu confesso que, como o Toninho, ando ficando de saco cheio com o formalismo do diretor. Sua maneira de tratar a imagem, o som, a sua sedução pelas belas mulheres, tudo é maravilhoso. O que é a Natalie Portman no filme? E a Rachel Weisz, caminhando em câmera lenta para a câmera, como a Maggie Cheung em ‘Amor à Flor da Pele’? E a Norah Jones, que se revela tão boa atriz? Tudo isso é dez, e o filme dá um salto (e melhora) quando entram em cena Natalie e Rachel. No restante do tempo, é só bonito. Planos maravilhosos, um atrás o outro. Mas onde a visceralidade? Tenho para mim que o melhor filme de Wong Kar-wai, cineasta dos sentimentos, que fala como ninguém sobre o amor entre homens e mulheres, é um filme visceral sobre uma relação terminal gay. ‘Felizes Juntos’, ou ‘Happy Together’. Amo ‘Amor à Flor da Pele’, mas o filme tem um tanto de perfumaria. ‘Felizes Juntos’ é mais porrada e ainda tem o plano mais belo filmado por Wong Kar-wai. O do cara lavando o sangue do matadouro. Como uma situação daquelas vira uma coisa tão linda é um mistério para mim. Um mistério, em termos. O olho do diretor para a beleza fornece a explicação racional. Mas que é deslumbrante, é.

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