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Cultura » O astro sombrio de Hollywood

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Luiz Carlos Merten

06 Abril 2009 | 11h41

Estava conversando com meus colegas Ubiratan Brasil e Leonirce Brioto, o Bira e a Leo, aqui na redação do ‘Caderno 2’, quando me chamou a atenção um livro na pilha sobre a mesa dele – ‘Heath Ledger, o Astro Sombrio de Hollywood’, de Brian J. Robb, lançamento da Panini Books. No minuto seguinte vi a chamada na capa do ‘Segundo Caderno’, do ‘Globo’, um texto assinado por Rodrigo Fonseca, ‘Biografia tenta entender fim trágico de Heath Ledger’. O Coringa de ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’ teria feito 30 anos no sábado, dia 4. Seus pais, que a gente conheceu na transmissão do último Oscar, lhe deram o nome em homenagem a Heathcliff, o atormentado herói de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, de Emily Bronte. Será que traçaram a via dolorosa do filho, a partir do nome? Especulações à parte, a biografia parece ser bem interessante pela forma como conta a ‘bela e triste história do ator que se fazia em pedaços e se dissecava’, convencido de que só assim conseguiria chegar ao coração de seus personagens. Conversei ontem à noite, bastante, com Suzana Amaral. Encontramo-nos no Sesc da Paulista, o teatro, onde fomos ver o monólogo de João Miguel, ‘Só’. João Miguel é ator – com Júlio Andrade, de ‘Cão sem Dono’ – do novo filme de Suzana. Ela, que sempre falou de mulheres, fez um filme essencialmente masculino, e adorou. Suzana estudou interpretação nos EUA. Chegou a frequentar o Actor’s Studio, cujo método não avaliza. Com tanto conhecimento, admira que os atores – e atrizes – sejam tão bons nos filmes dela? Havia ficado com o tema ‘interpretação’ na cabeça. Segundo Rodrigo (Fonseca), Brian J. Robb descreve Heath Ledger como uma bifurcação rara na indústria do entretenimento, alguém podendo escolher tanto o caminho para o estrelato internacional quanto para o domínio completo de sua arte. Tal cisão gerou uma força dramática comparada, ou comparável, à de Marlon Brando, mas nunca saberemos até onde ele chegaria. Há dois anos, em plena euforia das indicações de ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ para o Oscar, Heath Ledger foi ao Festival de Berlim mostrar aquele filme australiano sobre o poeta junkie que arrasta garota para as drogas. Não me lembro o título do filme. Ledger estava com uma agenda super-apertada. Deu uma entrevista coletiva que foi concorrida e uma mesa redonda que virou mini-coletiva, com tanta (senão mais…) gente do que na entrevista oficial. Curioso, ele é tão intenso na tela, tão crispado, mas me pareceu blasé. Falava de si mesmo com certo desdém, como uma fraude prestes a ser desmascarada – o livro trata disso; devia ser realmente algo muito forte para ele – e também minimizava a importância do sucesso. Não eram, numa sociedade competitiva, os dólares que o seduziam, ponto para ele, mas essa rebeldia me pareceu ‘posada’. Espero não estar denegrindo Heath Ledger porque gostava muito dele como ator, mas esse encontro que não houve foi decepcionante para mim. Até hoje tenmho a impressão de que vi heath Ledger num dia de saco cheio. Vou ler o livro. Recomendo, com base no aval de Rodrigo Fonseca. E vou confessar para vocês – claro que os grandes papéis dele foram em ‘Brokeback Mountain’ e no Batman de Christopher Nolan. Mas eu nunca resisti a ‘Coração de Cavaleiro’, que revi no período de convalescença, pós-cirurgia, numa sessão da tarde. Não me atreveria a defender a aventura medieval de Brian Helgeland, mas curto muito aquela entrada do Chaucer na história e me lava a alma a trilha com ‘We’re the Champions’ no desfecho. É como o número musical na última cena de ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’. Em ambos os casos, a música entra para desmontar a própria fantasia, é o oposto de ‘Imagine’, de John Lennon, no demagógico – mas emocionante, reconheço – final de ‘Os Gritos do Silêncio’, Essas vidas truncadas, James Dean, Heath Ledger, têm um efeito devastador sobre mim.