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Cultura » O artista como autodestruidor

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Luiz Carlos Merten

15 Julho 2011 | 14h28

Pertenço a uma geração que preferia o western ao musical. Agora que fiz a afirmação, pergunto-me se será verdadeira? Jefferson Barros amava Vincente MInnelli, um de seus cinco autores preferidos – com Visconti, Godard, Losey e quem era o quinto? Esqueci-me -; Hélio Nascimento, até por sua ligação com a música erudita (tinha um programa na Rádio da Universidade, em Porto), era outro que amava o cinema cantado e dançado. Mas eu, então, preferia o western ao musical. Sou capaz de citar 100 faroestes que me encantam e carrego comigo e uns 10 musicais. Duas estéticas 100% hollywoodianas, uma baseada no plano médio, outra no geral. Isto posto, e mesmo sujeito a receber pedradas, sempre achei Bob Fosse supervalorizado. Não há um musical dele que me arrebate, nem ‘Cabaret’, mas não sou louco de não reconhecer sua importância. “Lenny’, que não é um musical, como ‘Star 80’, me desconcerta. O filme entrou para o índex da censura, sob o regime militar. Conta a história de Lenny Bruce, um comediante que passou a vida brigando com a Justiça nos EUA. Lenny fazia stand up antes que o conceito existisse no Brasil. Era desbocado. Cuspia palavrões. Volta e meia era arrastado por policiais perante juízes que foram ficando cada vez mais hostis contra ele. Lenny retribuía, cada vez mais raivoso. O filme é sobre sua ligação com a stripper… Como é mesmo que se chamava a mulher? Honey alguma-coisa. De Mel é que ela não tinha nada. Dustin Hoffman é Lenny e Valerie Perrine é Honey. Ela foi melhor atriz no Festival de Cannes. É melhor do que ele, ou assim me parece, mas é daquelas afirmações que geram controvérsia. ‘Lenny’ possui uma admirável fotografia em preto e branco. Tem ‘atmosfera’. Mas por que me desconcerta? Talvez pelo excesso de autoconsciência de Fosse. Pode ser que, no fim da vida, Lenny fosse mesmo o sujeito intratável, intragável e nada engraçado que ele mostra, mas em algum momento ele deve ter sido divertido para justificar sua fama inicial. Acho que o filme só tem uma cena – Lenny com os pais – em que ele é engraçado. Estou falando sobre o filme de memória, sem rever. Tenho essa impressão de que Fosse caga (sorry) para Lenny ou então que o Lenny que lhe interessa é ele, em choque com o mundo. Um comediante que não é engraçado só pode ser um personagem trágico. Ou um chato. O filme seguinte de Fosse, seis anos mais tarde (em 1980), é ‘All That Jazz, O Show Deve Continuar’, sobre esse autor narcisista imobilizado num leito de hospital. Aí, sim, Bob Fosse ganhou sua Palma de Ouro, dividida com. o Akira Kurosawa, de ‘Kagemusha’, que, para o meu gosto pessoal, deveria ter vencido sozinho. Ele morreu com a mesma idade de François Truffaut, 52 anos.  Nem sei porque estou fazendo esse paralelo. Truffaut, o crítico que adorava se fazer odiar, virou um diretor em busca da unanimidade. Jean Tulard relata, e é verdade, que sua morte prematura provocou comoção nacional na França. Bob Fosse, pelo contrário, sempre me pareceu em guerra contra tudo e todos, mas talvez contra si mesmo, acima de tudo. Seu último filme, ‘Star 80’, sobre a coelhinha Dorothy Stratten, tem cenas atrozes envolvendo figurões da indústria e a obsessão pelo sexo. Esse último está em ‘Lenny’. Não creio que seja um grande filme, mas é o caso de rever, aproveitando o lançamento em DVD (pela Versátil).

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