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O Antonioni do sertão

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2006 | 13h31

Na entrevista que me deu quando Tudo Bem passou na Mostra, Arnaldo Jabor fez gênero. Proclamou – ‘Quero que me odeiem!’ Falava da chamada esquerda burra, na qual, às vezes, confesso que me incluo, pelo menos no quesito indignação a coisas que o ouço dizer no rádio. (É curioso, mas estou sempre em trânsito no carro do jornal nos horários do Jabor, do Marcos Petruccelli, do Artur Xexeo e do Carlos Heitor Cony. Sei tudo o que esses caras dizem.) Mas devo dizer que não deu para odiar o Jabor quando ele fez, ontem, seu comentário sobre O Céu de Suely, de Karim Aïnouz. Jabor comparou o filme a Vidas Secas, com observações tão pertinentes quando verdadeiras e bem colocadas. Confesso que também vejo o filme do Karim assim, como uma discussão sobre as novas vidas secas, que não são mais as da fome, de Graciliano Ramos e Nelson Pereira dos Santos, mas do desamor, da solidão, da falta de projeto e de sonho destes tempos globalizados que vivemos. É o que torna mais belo o gesto de Hermila/Suely no desfecho, a sua coragem e mais não digo para que o leitor que ainda não viu o filme queira vê-lo, para saber. Uma coisa, em especial, me tocou no que Jabor disse, no rádio, sobre Suely. Foi a citação a Ely Azeredo. Vivemos numa época em que até os debates de críticos viraram palanques para que nos digam quem presta ou não. Fulano é o melhor, é o isso ou aquilo. Pois o Jabor citou Azeredo dizendo que ele era dos raros que sabiam das coisas no Brasil – uma provocação, claro, mas não fora de propósito. A definição do Ely Azeredo é maravilhosa. Com O Céu de Suely, ele diz que Karim Aïnouz é o nosso Antonioni do sertão.