Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O Antonioni da comédia

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

O Antonioni da comédia

Luiz Carlos Merten

08 Junho 2008 | 17h23

Achei que não ia mais ter tempo de postar neste domingo, mas minha pauta da tarde foi muito mais rápida do que pensava. Meu editor, Dib Carneiro Neto, vive me puxando as orelhas por antecipar minhas pautas (e capas) do ‘Caderno 2’ aqui no blog. Não vou entrar em detalhes, apesar dizer que fui assistir a uma filmagem num cemitério, que transcorreu ao som de ‘O Bêbado e a Equilibrista’. Elis Regina cantava e eu viajava nas minhas lembranças relacionadas à música que virou hino da luta por anistia, nos estertores do regime militar. Cheguei aqui no Centro, quase fui ver ‘Corações e Mentes’ na retrospectiva de Maio de 68, no Cine Olido, mas preferi vir postar. Somente depois de ter acrescentado o posdt anterior fui ler os comentários de vocês sobre os posts de ontem, nos quais vocês já me anunciavam a morte de Dino Risi. Ele foi um dos grandes da comédia italiana, com certeza, um tragicômico como Mario Monicelli, mas muito mais voltado ao social do que ao familiar, ao contrário do autor de ‘Parente É Serpente’. Contei que há mais de dez anos Risi foi homenageado no Festival de Cannes e eu aproveitei para ver, não seus grandes filmes, mas os pequenos do começa de carreira – ‘O Signo de Vênus’ e ‘Pão, Amor e…’, com Sophia Loren, e ‘Pobres, mas Belas’ e ‘Pobres.prém Famosas’, com Marisa Allasio. Marisa Allasio! Com todo o respeito, mas era uma potrancona que fez um montge de comédias na segunda mertade dos anos 50 e depois sumiu. Deve ter-se casado com algum conde, como muitas estrelas italianas que abandonaram a carreira. Dino Risi começou como assistente por volta de 1940 e atravessou aquela década fazendo curtas e resistindo ao neo-realismo. Tenho certeza de que Rubens Ewald Filho conta, em seu Dicionário de Cineastas, que ele tentou fazer um filme na Vera Cruz e não conseguiu. Dino Risi não virou gênio da comédia de repente. Ele se exercitou por cinco, seis anos, até iniciar com ‘Uma Vida Difícil’, acho que em 1960, sua grande fase. Vieram depois ‘Marcha su Roma’, ‘Aquele Que Sabe VIver’ – que marca sua descoberta oficial -, ‘Os Monstros’ e todos aqueles filmes que você sabe, se é cinéfilo de carteirinha. O meu favorito é ‘Férias à Italiana’ (L’Ombrellone), de 1966, que tem a cena mais antológica da carreira de Dino. Enrico Salerno foge de Roma, no verão, e vai para a praia, como dezenas de milhares de romanos. Naquela praisa apertada, todo mundo disputando espaço, ele se instal.a com a mulher e Sandra Milo desanda a falar sobre o vazio de sua vida enquanto a areia escorre no meio de seus dedos, como numa ampulheta marcando o tempo. Coisa de gênio! Em ‘Aquele Que Sabe Viver’, Dino já mostrara o jovem Jean-Louis Trintignant seduzido pela irresponsabilidade social de Vittorio Gassman. Os temas do diretor eram a alienação, a solidão e a incomunicabilidade, exatamente como em ‘Férias à Italiana’ e eu sempre me valho disso para chamar Dino Risi de Antonioni do humor. Adoro outros filmes que ele fez – ‘Vejo Tudo Nu’, com aquele esquete genial em que Nino Manfredi espia a bunda do que lhe parece ser uma gostosa, no apartamento em frente, e na verdade é a bunda dele, projetada num jogo de espelhos (nunca vi nada parecido, em termos de voyeurismo cinematográfico), ou então o episódio de ‘Nós, Mulheres, Somos Assim’, em que Monica Vitti, troca olhares com um cara que pensa que está sendo paquerado numa lanchonete, e ela é cega. Acho que essa dificuldade, ou impossibilidade, de ver não era acidental em alguns filmes de Dino Risi. Ele estudou medicina (como Richard Fleischer) e, se trocou a psicanálise pelo cinema, foi porque descobriu neste últiumo um eswpelho (deformante) no qual projetar aberrtações comportamentais e sociais que faziam a gente rir, mas era um riso muitas vezes amargos. Eu amava Dino Risi. Disse-o ao filho dele, numa vez em que entrevistei, acho que em Veneza, o também diretor Marco Risi. Em ‘Os Novos Monstros’, filme em episódios, as últimas cenas mostram o enterro do comediante virando a maior zona, uma verdadeira festa. Jean Tulard define Dino Risi como um ewpicurista apçaioxonado pelas belas mulheres e pelas coisas boas da vida, por mais crítico que fosse de seus personagens e da vida social e política italiana. Nenhum necrológio sobre Risi, que morreu velhinho, com 91 anos, resiste à lembrança de suas grandes cenas. Em ‘Os Monstros’, a dupla de policiais Gassman e Tognazzi, ambos monstruosos, vai prender o perigoso meliante e sai aquele sujeito esmirradinho no meio dos dois. Grande Dino Risi!