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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2010 | 10h24

PARIS – Cá estou há dois dias, sem dar notícias. Cheguei na segunda à tarde, me instalei no hotel e já fui ver meu primeiro filme, um western. ‘The Unforgiven’, de John Huston, que no Brasil se chama ‘O Passado não Perdoa’ (e foi lançado em DVD). Aqui, é ‘Le Vent de la Plaine’. O próprio Huston é duro com esse filme que teve muitos problemas de produção – ele se desentendeu com o astro/produtor Burt Lancaster, Audrey Hepburn teve um acidente quando montava o cavalo que havia pertencido ao ditador cubano Fulgencio Batista (ela estava grávida, perdeu o bebê e ainda fraturou as costelas, o que a forçou a permanecer imobilizada e, depois, a usar um colete de aço para concluir a filmagem). Apesar de tudo isso, ‘O Vento na Planície, o título local, me causou uma forte impressão, na mesma vertente de ‘Rastros de Ódio’, de John Ford, que, por sinal, se baseou em outra história do mesmo autor, Alan Le May. Na segunda à noite, fomos jantar, Elaine Gureini, Orlando Margarido e eu, no Blue Elephant, o melhor tailandês de Paris – e quiçá do mundo -, comemorando o aniversátio dela. Ontem, terça, foi o aniversário de minha filha, Lúcia. No domingo, dia 21, o de meu amigo Dib Carneiro. Minha irmã, Marlene, também fez aniversário neste mês. É muita gente de Aquário e de Peixes ao meu redor. Ontem, não resisti e fui rever ‘Os Três Mosqueteiros’, a maravilhosa versão de George Sidney, com Gene Kelly e Lana Turner (como Milady). Sidney era um ás do musical, os duelos de espada parecem cenas de dança e a trilha, sobre temas de Tchaikovski, é um sonho de melômano. Vou voltar ao filme, prometo, bem como a ‘L’Autre Dumas’, com Gérard Depardieu, que vi em Berlim, no domingo. O filme é sobre o ghost writer de Alexandre Dumas, que o ajudou a escrever seus clássicos e que quer sair do anonimato para impressionar a mulher que ama. De alguma forma, acho que terminei vendo ‘Os Três Mosqueteiros’ com outros olhos. Minha noite, ontem, incluiu a homenagem de Cahiers du Cinéma a Éric Rohmer, uma projeção, seguida de debate, no Panthéon, o cinema que tem Catherine Deneuve como madrinha, no Quartier Latin. Hoje pela manhã, fui ver a exposição Edward Munch, ‘l’anti-Cri’, que me deixou em transe. Como Courbet, há dois anos, descobri outro artista de gênio, muito maior (e mais influente) do que pensava. Como todo mundo, sempre vi Munch como o homem de uma só obra-prima, ‘O Grito’, quadro que antecipa o expressionismo. Pois ele foi muito maior e mais complexo, como prova essa exposição na Pinacotecas de Paris, a primeira (no mundo) a reunir as obras do artista que pertencem a coleções particulares. São dezenas de telas, mas também gravuras e litografias. Tem até cinema, um filme experimental, de 6 minutos, que Munch realizou em 1927. Vou ter de voltar a essa exposição, com certeza. Mesmo não sendo expert em vusuais, arrisco a dizer que um pouco de Goeldi e Grassman passam por Munch, maravilhoso. Minha dúvida, agora, é o que ver, à espera de M. Huppert – ‘Um Tramway’ -, logo mais à noite. A peça é longa, 3 horas, e começa às 8. Tenho de estar lá às 7h30, quero dizer, 19h30. EStou quatro horas à frente de vocês e lstou louco para rever meus velhos (John Ford, Henry Hathaway e George Marchall) na versão restaurada, em película, de ‘A Conquista do Oeste’ (eu e minha paixão pelo western). Mas também está estreando ‘A Single Man’ e quero conferir a estreia de Tom Ford, que candidatou Colin Firth ao Oscar. Vou ver os dois – fico até sábado aqui -, a questão é qual, agora…